Crônicas & Opiniões - Coluna de colaboradores do Correio
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Ceitil de respeito ( Bruno Peron Loureiro )

Crônicas & Opiniões | Fonte: Bruno Peron Loureiro ( analista relações internacionais ) :: 31/08/2010

 Bruno Peron Loureiro - analista relações internacionais O nascimento traz um paradoxo: a aurora da existência material, cujo fenômeno é tão divino quanto mal compreendido, acompanha a necessidade gradual de cada quem livrar-se de alguns vícios culturais e conquistar parâmetros de respeito a si e ao próximo.

Muitos abandonam religiões de berço por discordar de suas doutrinas, apesar da imposição do batismo; outros mudam hábitos alimentares por entender finalmente que o que comem está distante de ser salutar; há os que não veem esperança na classe dirigente de seu país porque as escolhas se fazem pela imagem e não a proposta.

Os debates cronometrados de candidatos a cargos executivos nas eleições vindouras no Brasil mostram que poucos têm propostas sólidas e viáveis, as ofensas e réplicas pessoais são constantes e velhos discursos reincidem e ignoram o caminho decente da inserção internacional inescusável do país, que se tem feito com a subserviência do povo.

Nações que se fecham, cedo ou tarde, esbarram com a necessidade de sua própria sociedade de articular-se com o mundo. O Japão transitou de um regime feudal à abertura da Era Meiji na segunda metade do século XIX; logo converteu-se numa potência mundial. Cuba recentemente flexibilizou as regras para o empreendedorismo privado e não se abre mais ao mundo devido ao embargo covarde levantado pelos Estados Unidos desde fevereiro de 1962.

O Conselho de Segurança das Nações Unidas, a despeito da resistência de Brasil e Turquia, autorizou o reforço de um pacote de sanções econômicas ao Irã. A medida partiu da pressão de países que têm interesse estratégico na região e não pouparam comentários ardilosos e criminosos para o isolamento do país dirigido por Mahmoud Ahmadinejad. O dignitário encontrou um dilema: ou elabora um programa nuclear (para fins pacíficos, por conseguinte) ou terá o mesmo fim de Afeganistão e Iraque.

A propósito, descobriram uma jazida petrolífera de aproximadamente 1,8 bilhão de barris no norte do Afeganistão, onde geólogos estadunidenses participam da exploração da zona. O país dispõe também de reservas inexploradas de metais e minerais, como ouro e lítio.

O lítio é matéria-prima de baterias, a tecnologia do futuro. Quando se popularizar o veículo automotor movido a eletricidade, de qual se tem falado mais ultimamente, o lítio será o insumo fundamental assim como já o é para computadores portáteis e telefones móveis.

Ainda há os que creem na boa intenção de euânus e aliados picaretas e impostores que reúnem orçamento militar elevadíssimo para invadir países a fim de garantir os "direitos humanos" no outro lado do mundo. Muitos se encantam com os discursos de que aqueles agentes tinhosos asseguram a "paz" e a "estabilidade" em países recalcitrantes. Talvez a dos bolsos dos que autorizaram a quebra da auto-determinação dos povos e o massacre de quem não tinha um Stallone ou um Schwarzenegger para defendê-los com armas de última geração.

Há um estado de coisas que só o tempo permite abandonar ou adotá-las, como se expôs noutro momento, ainda que o nascimento dificulte a libertação do caldo cultural deturpado. Que tal abandonar a irresponsabilidade com a natureza e adotar o respeito à vida?

Trabalhadores hondurenhos fazem greve em resposta à política de paralisação salarial do governo golpista de Porfirio Lobo e aos custos cada vez mais elevados da cesta básica e a atenção sanitária. Era de se esperar uma atitude similar por parte da base do presidente deposto Manuel Zelaya, uma vez que a democracia não agrada a todos os interessados no poder.

Enquanto isto, um informe do Instituto Nacional de Pesquisa Espacial (INPE) indica que houve um aumento de 85% do número de incêndios florestais no Brasil de 2009 a 2010. O estado mais afetado é Mato Grosso do Sul e as causas principais - dizem com toda convicção - são a estiagem e o desmatamento em áreas agrícolas.

Acontecimentos e processos que dificultam a resolução de problemas que já são difíceis na América Latina estimulam-nos o desejo de voltar a ser criança, sonhar, criar, desafiar e imergir na ingenuidade de um mundo decadente, mas que nos induz a aceitá-lo do jeito que é. Ainda bem que dispomos de livre-arbítrio, pelo qual temos a chance de discordar!

Caramba! Aonde querem chegar os que não respeitam nem a si próprios?

A bobina desta novela tem que chegar ao fim.

Verdugos da Natureza ( Bruno Peron Loureiro )

Crônicas & Opiniões | Fonte: Bruno Peron Loureiro ( analista relações internacionais ) :: 24/08/2010

 Bruno Peron Loureiro - analista relações internacionais Causa inveja o modo de vida de comunidades indígenas nos rincões do Brasil. Enquanto elas organizam-se em função de suas necessidades e costumes próprios sem a desconfiança de que os "representantes" não cumpram bem seu papel, os homens urbanos da "civilização" mergulhamos na desordem, na violência e no desrespeito ao próprio meio de sobrevivência.

Ed Stafford é um britânico de trinta e quatro anos que percorreu em caminhada e com uma mochila onerosa na costa toda a extensão do rio Amazonas. Seu objetivo precípuo: ser testemunha ocular do desmatamento e a exploração madeireira mal fiscalizada e promover a consciência ambiental dos jovens.

Num trecho da caminhada que totalizou 6.800 quilômetros, Ed e seu acompanhante peruano foram ameaçados de morte por uma comunidade indígena cujos integrantes acreditaram que aqueles quisessem roubar e traficar os órgãos das crianças da aldeia. Não são raros grupos indígenas que ainda não foram catalogados.

Qual é o preço da "civilização" que se impõe arrogantemente, mas se lamenta veementemente quando o prejuízo ambiental e social é irreversível?

A Secretaria de Meio Ambiente do estado de São Paulo, Brasil, autoriza uma cota de queimada de cana que é criminosa, covarde e danosa para qualquer cidadão que vê seus bens materiais forrados de cinzas dos canaviais e ainda respira ar impuro em plena estiagem. Dizem que a prática estará proibida em no máximo cinco anos, mas há tempos vivemos de promessas.

Enquanto não se faz nada para conter a voracidade da "civilização" (destrutiva, inconsequente e inimiga da vida) numa das regiões mais populosas do Brasil, não se queira imaginar o ritmo de degradação da Amazônia, tão bela, remota e ameaçada. Não haverá mais espécimes nem para os cientistas gringos coletarem e carregarem em seus jatos sem ter que declarar na alfândega.

O cidadão britânico começou sua viagem em 2 de abril de 2008 desde a nascente do rio no sul do Peru e terminou em 9 de agosto de 2010 na costa atlântica, próximo de Belém. Ed atravessou Peru, Colômbia e Brasil sem ter que pegar filas ou dormir nos aeroportos por atraso dos voos.

Sua experiência na mata, porém, contou com picadas de mosquitos e escorpião, ferroadas de abelhas e ainda teve leishmaniose (doença causada por parasitas e transmitida por mosquitos) no percurso. Ed viveu de pesca de piranhas, reserva de arroz e feijão, e alimentos que comprou de comunidades ribeirinhas. Outros aventureiros já enfrentaram condições mais árduas, mas não tiveram tamanha publicidade.

Na incapacidade de o governo e os cidadãos do Brasil frearem tendências destrutivas em seu próprio território, outros países patrocinam aventureiros e cientistas, documentários e reportagens, organizações sem fins lucrativos que escancaram os problemas ambientais e sociais que abundam na América Latina. Nem sempre, portanto, são intrometidos.

Assim que uma questão local transforma-se numa preocupação global, as "autoridades" vernáculas começam a interpretar as leis do jeito que qualquer cidadão de bem merece vê-las cumpridas. Por isso a legislação geralmente é boa no Brasil; maus são seus intérpretes.

A caminhada de mais de dois anos de Ed Stafford pelo "pulmão do mundo" serve para resgatar o debate sobre o desmatamento para pecuária e exploração madeireira, a governabilidade e o cumprimento da lei ambiental, e a internacionalização da Amazônia.

O ritmo de desmatamento tem diminuído nos últimos anos graças a políticas mais sustentáveis e o aumento da consciência ambiental dos jovens. A tendência é de que os verdugos da natureza tenham cada vez menos espaço a despeito de sua adaptação a outros negócios destrutivos mas rentáveis. A monocultura para exportação é um deles.

O planeta pede novos aventureiros que descortinem irresponsabilidades da espécie humana. Encontre alguma e denuncie! Hoje nos restam poucas evidências de que ser "humano" é sinônimo de virtude, a menos que, algum dia, resgate-se o romantismo perdido.

Sonho com uma relação homem <-> natureza pela qual aquele retire desta somente o necessário para sobrevivência sem ter que, por exemplo, queimar o excedente de café que se produzia durante a crise cafeeira no Brasil. Repetem-se os capítulos nebulosos da história do capitalismo.

Que os probos superem os desonestos!

Lute por uma ordem mundial equilibrada!

Você tem um papel importante a cumprir!

Enguiçamento da História ( Bruno Peron Loureiro )

Crônicas & Opiniões | Fonte: Bruno Peron Loureiro ( analista relações internacionais ) :: 16/08/2010

 Bruno Peron Loureiro - analista relações internacionais Podíamos acreditar que os tempos modernos haviam sido cabalmente proveitosos para a humanidade devido à "facilidade de comunicação" e à velocidade extasiante dos "avanços tecnológicos". Tudo graças à globalização: o maior dos clichês e termo diz-que explica qualquer fenômeno.

No entanto, um olhar mais atento e mais sóbrio - deixando a caninha de lado porque a cana está tomando conta de tudo - permite visualizar que a história enguiçou. Pior que isso: a nossa espécie e o planeta só sobreviverão se um ente maior intervier e puser ordem na casa, corrigindo, portanto, os desvios de conduta. Somos um número muito grande de transtornados.

O primeiro deles poderá versar sobre o reconhecimento - muito custoso para alguns - de que as políticas públicas não devem priorizar carros, obras viárias e o setor que movimenta a indústria automobilística, como o de combustíveis (renováveis, não-renováveis, ou o que seja; que diferença faz para o bem-estar?), mas o ser humano em sua integridade. Pensemos em educação, moradia, saúde, lazer, etc.

É grande o desafio, assim, de retificar a falta de visão de administradores da "coisa pública", que teimam em concentrar investimentos para a circulação de bens tão materiais e privados como os automóveis. No lugar, deveria haver incentivo ao transporte coletivo com rotas alternativas, veículos compactos e ecológicos, e tarifas subsidiadas para ônibus, metrô, trem.

Um político tupinica local comentou uma vez que "o espaço público é de ninguém". Como conciliar esta visão torpe com o afã de uma população que é convidada cada vez mais a encerrar-se no lar e abrir mão de seus espaços de convivência, arduamente conquistados e facilmente perdidos?

Muito mais pertinente teria sido uma interpretação do espaço público como lugar de encontro e interação da coletividade, portanto digno de preservação em vez de pilhagem por demolidores ou malfeitores daquilo que temos em comum. Um lugar de todos!

Embora os centros comerciais (ou "shoppings" no vocabulário tupinica) sejam muito parecidos em qualquer cidade ou país, as pessoas insistem em refugiar-se nestes espaços porque o ambiente externo se tem convertido em lugares de incerteza, insegurança e desconfiança. Dizem que não há outra opção de lazer. Preferem, portanto, enfiar-se neles e ignorar em que cidade estão.

É inevitável fazer alguma referência ao local quando se quer interpretar contextos mais amplos, como o nacional. Identificam-se parâmetros relevantes na construção de um país digno, por exemplo o nível baixo e insatisfatório de cidadãos que temos.

Como poderíamos cobrar probidade de todos os representantes políticos se alguma parcela - infelizmente grande - do país conta com mal-intencionados? Assim funciona uma "democracia representativa", porém. Finalmente aflora a consciência de que a construção de qualquer nação digna depende de cidadãos ativos, envolvidos e voltados à causa comum.

Não devemos agir somente quando se viola um bem privado ou somos vítimas daquilo que o Estado tem contraditoriamente tirado o corpo, como a segurança pública. Policiais militares fardados fazem frequentemente segurança de clubes e festas privadas. A nossa participação deverá ser constante. Os governantes controlam a "coisa pública", enquanto nós, como cidadãos, controlamos aqueles. Se nos insatisfizerem, portanto, botamo-los para fora.

A continuidade do motor da história depende da geração de uma nova categoria de cidadãos, mais comprometidos com o espaço público e com a interação entre semelhantes. Alguns de nós poderemos estar entre eles; outros, nem na "Terra do Nunca".

Soma-se que não deverá haver qualquer desorientação sobre a funcionalidade do "público" e a nossa capacidade de engajamento sem fins sectários.

Deste modo, o motor da história precisa atravessar fases de esfriamento para que não enguice tampouco alcance a fundição. O tratamento para este sintoma, vale lembrar, não tem sido oferecido pelos promotores de um "progresso" sinistro, dentre os quais o do desmatamento.

Muitos destes agentes sequer residem na América Latina, mas vendem desde seus postos confortáveis nalgum casarão de luxo a ideia de um mundo melhor através do consumismo de seus produtos inúteis e do aquecimento de um setor produtivo que alimente o brutal e excludente "mercado internacional", o fetiche do momento.

Comprometimento com a justiça social e a vida é o conceito que falta.

É por isso que se fala tanto sobre o aumento do consumo na América Latina, a redução da poupança, a taxa de crescimento econômico anual, as exportações, o emprego a qualquer custo e tantos outros conceitos que falam grande mas pensam pequeno. No fundo, poucos entendem disto, mas estas informações circulam diariamente.

Chegou sua vez de escolher, caro leitor.

Você prefere ser cliente ou cidadão?.

Virtudes de qualquer cidadão ( Bruno Peron Loureiro )

Crônicas & Opiniões | Fonte: Bruno Peron Loureiro ( analista relações internacionais ) :: 08/08/2010

 Bruno Peron Loureiro - analista relações internacionais A natureza, cedo ou tarde, devolve à humanidade aquilo que esta tirou daquela. Enquanto a tragédia das inundações pluviais afetou desta vez o Paquistão, o oeste da Rússia assistiu à declaração de estado de emergência devido ao calor excessivo e incêndios florestais.

O homem não se volta somente contra a natureza, mas encontra animosidades dentro da mesma espécie. Numa declaração de que vizinhança não implica necessariamente amizade, o líder venezuelano Hugo Chávez rompeu relações diplomáticas com a Colômbia de Álvaro Uribe.

Até que Juan Manuel Santos assumisse a presidência da Colômbia em 7 de agosto de 2010 e antes da dispersão das incertezas, o vizinho petroleiro tem levado a sério as declarações do governo colombiano sobre o apoio de Chávez a guerrilheiros no território venezuelano. Abriu-se mão do recurso da diplomacia, que já evitou muitas guerras.

Em cada lado deste mundo há demonstrações de que o homem não tem vocação de liderança sobre outras espécies como acreditou por muitos séculos, inclusive antes do período das "luzes". Ao contrário, as maiores virtudes limitam-se a mitos que encontram poucos correspondentes em qualquer sociedade. Ao maior deles, deram-lhe pouco mais de três décadas de vida!

Toda sociedade manifesta formas e expressões de poder que visam a organizá-la, mas quase sempre geram estruturas hierárquicas e opressoras que escravizam os homens e oferecem-lhes poucas possibilidades de auto-conhecimento e reforma sistêmica.

É só ver a bandalheira em que está o Brasil.

Um caso notório de que é possível adequar um modo de produção ao anseio de parte da população ocorre em Cuba. O governo cubano de Raul Castro flexibiliza o sistema produtivo da ilha ao prever a abertura de pequenos negócios e a comercialização de alguns bens após longas décadas de domínio da propriedade estatal.

Poucos países latino-americanos apresentam processos de grande envergadura que ocorrem de dentro para fora. Geralmente se apropriam de modelos (culturais, econômicos, políticos, etc) que emergiram no ultramar e, antes de que dessem certo por lá, já se enquadravam por aqui. Quando e se dessem errado, quebrariam lá e aqui ao mesmo tempo.

Assim tem sido com a religião, o idioma, os estrangeirismos, a alimentação, os filmes, o capitalismo e a democracia. Que "passione" nos causam!

Mas nem tudo é culpa da globalização.

Haverá de aparecer um culpado mais pertinente, travestido de cidadão!

Neste ínterim, seguem os esforços de cooperação e integração entre os povos da América Latina, que têm culminado nos encontros da União de Nações Sul-Americanas (UNASUL) e o aperfeiçoamento do Mercado Comum do Sul (MERCOSUL). Ainda tem gente séria e preocupada com os rumos da região para evitar a venda de nosso patrimônio abaixo do preço de custo.

Ambos processos demonstram o compromisso dos países da América Latina de escutar as partes envolvidas e trocar experiências.

Para citar alguns objetivos derradeiros, a UNASUL tenta reaproximar os governos de Colômbia e Venezuela, no tempo em que o MERCOSUL desembaraça o comércio fronteiriço e conquista o Paraguai com o atendimento de suas demandas energéticas com o Brasil.

O desafio ainda é grande devido ao excesso de equívocos do passado, alguns irreversíveis.

Chamam os anos 1980 de "década perdida" na América Latina, mas penso diferentemente. Foi a década em que ainda havia esperança, já que a escolha que a região fez e entrou de cabeça nos anos 90 foi a de um consumismo decrépito, um neoliberalismo essencialmente desleal com o desenvolvimento humano, uma aposta cega no mercado.

Basta ver o que a empresa SIGEL, com sucursal no estado do Pará, Brasil, fez para aumentar seus lucros sobre a venda de barbatanas de tubarão aos chineses, que as consomem nas sopas. Limitados pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA) quanto ao número de tubarões autorizados para abate, contrataram mercenários para retirar estes seres do mar, cortar suas barbatanas e lançá-los novamente ao acaso das ondas, à morte certa, porque ninguém verá seu destino fúnebre no fundo do mar. É o mesmo que mutilar uma pessoa, cortar todos os seus membros, e jogar ao acaso. Canalhas, cruéis, frios, vis e impunes!

Por isso as desgraças têm sido abundantes e a resposta da natureza chega lancinante. Nunca fez tanto calor, nunca choveu tanto ou se teve estiagem tão duradoura, nunca houve tanta gente (sobretudo as más), o trânsito nunca esteve tão ruim nem o ar tão fedido.

O estancamento destes fenômenos não depende só de nossos "representantes" que se réunem em volta de uma mesa gigante de mármore nalgum palácio governamental, mas da atuação de cidadãos engajados e preocupados com o rumo deste país e do mundo.

Não se subestime porque acredita que aparece menos que fulano de tal ou falta em você uma virtude que vê noutra pessoa.

Encontre em si mesmo uma característica que poderá enaltecê-lo como um cidadão. Tenho certeza de que encontrará!

Altruísmo às avessas ( Bruno Peron Loureiro )

Crônicas & Opiniões | Fonte: Bruno Peron Loureiro ( analista relações internacionais ) :: 18/07/2010

 Bruno Peron Loureiro - analista relações internacionais Por mais irrefletida que seja uma atitude, o bom caminho sempre se apresenta ainda que na intuição, faculdade mal compreendida. Talvez sejamos destinados ao altruísmo ao contrário do que pensam os que se especializaram em semear agonia e discórdia.

Luta pela sobrevivência num capitalismo decadente? Ou convicção de que não prestamos conta de nossos atos? A humanidade não regride. O que acontece é que um número maior de seres predadores concentra-se no mesmo perímetro sufocado, o planeta Terra. O aumento populacional tem transformado esta esfera num lugar insuportável.

Logo não haverá natureza que resista às negligências: derramamento de óleo pela British Petroleum no Golfo do México desde abril de 2010 (que parece haver sido estancado), inundação de cidades inteiras (como Branquinha, no nordeste brasileiro), e contaminação atmosférica em regiões onde há poucos anos se podia respirar saudavelmente.

Ao passo que cada um detém a sua verdade, quem garante que a ideia de altruísmo não sofra variações? A filantropia tem base noutro estado de espírito que o que envolveu a presença interesseira de alguns países no Haiti. O amor verdadeiro implica desprendimento.

Não é possível avançar sem refletir sobre o acúmulo de contradições e dilemas que a História nos herdou. Qualquer tentativa de construir sobre processos inacabados é estéril, portanto.

EUA se crê promotor de justiça mundial quando a secretária de Estado Hillary Clinton declarou, numa de suas viagens internacionais, que, enquanto o presidente Barack Obama se compromete com a democracia e os direitos humanos, Bielorrússia, Cuba, Irã e Venezuela desrespeitam os direitos humanos.

Se começassem a avaliar os direitos humanos em seu próprio quintal, os próceres dos governos euânus já estariam atados judicialmente. Lástima que há coisas que os países terceiro-mundistas costumam venerar dos EUA, enquanto outras sequer funcionam por lá, por isso se as ignora em vez de enaltecer caminhos que seguimos melhor pela América Latina.

Pelo mundo afora, países enfrentam desacertos. O presidente equatoriano Rafael Correa, antes da vitória de Juan Manuel Santos como novo mandatário da Colômbia, havia demonstrado preocupação em vez de segurança caso Santos vencesse devido à forma de conduzir a guerra civil colombiana envolvendo a guerrilha, tão próxima do território de Equador. O receio se deve a que Juan Manuel Santos é visto como sucessor de Álvaro Uribe.

Houve resistência, noutra ocasião, à exploração de minas de ouro no norte de Costa Rica, numa região chamada Las Crucitas e a poucos quilômetros da fronteira com Nicarágua. Organizações de interesse público temem que as minas poluam as águas e afetem a natureza, cuja beleza não encanta a todos ao que tudo indica.

Tentam dar-nos razões para acreditar que os problemas acontecem em qualquer parte do mundo menos nos EUA, país da dissimulação. O desemprego elevado na Espanha e as greves na Grécia abalam a União Europeia e reiteram o impacto da crise financeira mundial.

O México hospeda um confronto que mostra a podridão de seu sistema político e o domínio do narco-dinheiro, verde como a cor do dólar. Nas eleições de julho de 2010 para governadores em doze estados, pessoas deixaram de votar para não se expor à violência incessante ou porque não acreditam nos candidatos.

De um extremo a outro da América Latina, os países assistem a espetáculos de um altruísmo às avessas. Pessoas fingem que amam o próximo enquanto o mundo se esfarela.

Um dos espetáculos que emocionaram foi a recepção afetiva e carinhosa dos argentinos ao regresso da equipe de futebol daquele país. Ainda que não tenham vencido na Copa do Mundo, a mensagem foi a de que se tratava somente de um jogo (um dia se ganha, outro se perde) e o mais importante é o ânimo para superar novos desafios.

O mundo precisa de trabalhadores e não necessariamente herois, ainda que de última hora.

Leitor, chegou o momento de reconhecer que você não é só um número como insinuam as estatísticas. Busque o altruísmo. Sua atitude faz a diferença.

Pedidos de indulgência ( Bruno Peron Loureiro )

Crônicas & Opiniões | Fonte: Bruno Peron Loureiro ( analista relações internacionais ) :: 12/07/2010

 Bruno Peron Loureiro - analista relações internacionais A natureza é sábia. A boa notícia é que contamos com o equilíbrio natural de forças; caso contrário, os pedidos de indulgência da humanidade já teriam excedido qualquer limite devido ao grau dos pecados, cumulativos e flamejantes.

Sabedoria, deste modo, não se pode confundir com acúmulo desorganizado de conhecimento ou mal uso dos saberes, como o emprego de aviões para combate bélico ou de micro-câmeras para quebrar privacidades. Inventores bem-intencionados se decepcionariam. A capacidade criadora do homem converte-se em desejos destrutivos na menor sombra de desequilíbrio.

O avanço da técnica culminou na transformação dos humanos em seres manipuláveis e vulneráveis. Sonha-se com robôs que nos farão de tudo. Os meios de comunicação, em seu turno, também condicionam mentes, inibem a reflexão, moldam identidades.

Sem espaço nos presídios chilenos, o presidente Sebastián Piñera pede um indulto à Igreja Católica para que milhares de delinquentes comuns e violadores de direitos humanos deixem de amontoar-se naqueles ambientes de reclusão.

A lógica de exclusão de ineptos do sistema mercantil através da construção desenfreada de cárceres (alguns até com televisão por assinatura e grelha para churrasco, cujas imagens são mais nobres que muitas favelas tupinicas) repete-se noutros países latino-americanos. Autorizou-se há pouco a construção de 48 presídios somente no estado de São Paulo, um dos mais industrializados no Brasil. A marginalização caminha junto com a industrialização?

Por sua vez, a Justiça argentina tem julgado crimes cometidos por ex-ditadores militares, que assassinaram, perseguiram e torturaram opositores. Estima-se que trinta mil pessoas desapareceram na Argentina naquele período.

Não há justiça terrena que restitua os laços familiares de milhares de exilados, que se trasladaram a países como México e França, nem dinheiro que devolva a esperança de famílias que a ditadura desestruturou e expatriou.

O motor nebuloso da história, porém, retifica-se nalgumas circunstâncias e abre precedentes (modernos, pós-modernos ou ultra-modernos?) para a volta dos golpes militares e dos governos impostos em nações até então tidas por soberanas. Por menos angelical que tenha sido ou se apresente Manuel Zelaya, Honduras assistiu à deposição de seu presidente legítimo em 28 de junho de 2009. Um ano depois, o povo manifesta-se em apoio a uma institucionalidade democrática tão prezada, mas que lhes foi arrebatada.

Já que é impossível o consenso, que as maiorias decidam sobre o futuro das nações a que pertencem! Nem Deus nem o acaso aguentam mais que se lhes atribuam tantas tarefas!

A despeito da podridão da máquina estatal tupinica, Dilma Rousseff superou José Serra nas intenções de voto pela corrida presidencial. O que mais chama atenção nas eleições dos tempos atuais (ainda não a "Nova Era" para a infelicidade dos esperançosos) é o deslocamento da luta política das ruas e partidos políticos para a televisão. Sintoma da nova época ou loucura?

Os candidatos principais disputam tempo de propaganda eleitoral na televisão através das coligações entre partidos políticos. Trinta segundos a mais ou a menos podem fazer a diferença na aprovação de algum deles. Projetos para o país e ideias para o mundo já pouco se discutem, visto que o mais importante é a imagem publicitária e a ilusão de que os eleitores participam dos debates. A tal da democracia (representativa) em nova arena.

Entrementes, discutem-se grandes propostas pelo presidente equatoriano Rafael Correa, que incentiva o uso do Sistema Único de Compensação Regional (SUCRE) no comércio entre países de América Latina e Caribe. O mecanismo de trocas virtuais visa a reduzir o uso de moedas de outras regiões, como o dólar, e a atribuir maior autonomia econômica aos países signatários.

Se ao menos pudéssemos visualizar o caminho de compreensão e paz que podemos escolher dentre outros tão funestos, mereceríamos maiores indulgências da natureza.

Voragem dos privilegiados ( Bruno Peron Loureiro )

Crônicas & Opiniões | Fonte: Bruno Peron Loureiro ( analista relações internacionais ) :: 05/07/2010

 Bruno Peron Loureiro - analista relações internacionais As virtudes de um homem conhecem-se por suas ações, diriam alguns aforismos. Esquecem-se seus formuladores de que é necessário primeiramente elevar o pensamento e purificar as intenções, isto é, podem-se identificar vícios antes de qualquer aparência.

Os malfeitores acreditam que sustentam seus enganos sem maiores dificuldades, mas, cedo ou tarde, encontram em sua própria consciência a cobrança pelos atos inconsequentes e as ideias imprudentes, desafortunadamente comuns na conduta humana.

Estadistas renomados - apesar de canalhas e devedores - têm reiterado o papel de alguns países como piratas e verdugos dos que menos podem e menos têm, a exemplo das práticas hediondas de Baby Bush e o massacre aos povos islâmicos, ainda em curso.

Como erros do passado reincidem, o grupo Al Qaeda faz pedidos frequentes ao governo de EUA para que retirem suas tropas - e as dos exércitos aliados - e deixem de intrometer-se na vida política de países islâmicos. As lágrimas dos civis vitimados pelas guerras têm sido impotentes para sensibilizar os "Cruzados" do século XXI.

Equívocos que se repetem insistentemente tendem a virar costume em política internacional.

Entre 1962 e 71, EUA contaminou os solos de Vietnã com o lançamento de um herbicida chamado Agente Laranja, que arrasou bosques, colheitas e tem provocado, até hoje, nascimentos com deformações. A única ameaça foi o tal do antraz naquele país, que ninguém encontrou.

É tão impostora a política exterior EUAna que eles condenam e temem tudo o que já impuseram a outras nações, como ditaduras, armas químicas e programas nucleares. Aconteça qualquer tragédia no mundo todo desde que não se ultrapassem as fronteiras daquele país decrépito!

Enquanto bilhões de humanos - encarnados e desencarnados, almados e desalmados - que pairam sobre a superfície da Terra não se submetem à dieta putrefata do McDonald´s ou enchem o rabo da Intel ou da British Petroleum de dinheiro, continuarão massacrando tudo o que ameace a "liberdade" de consumo e até de expressão.

A vitória do ex-ministro de Defesa Juan Manuel Santos como presidente na Colômbia e a continuidade da política de "segurança democrática" de Álvaro Uribe, ou seja, o combate a guerrilheiros e ao crime organizado levam ao pé da letra o modelo de anulação da oposição.

Cobra-se a assessoria de estilistas na América Latina, uma vez que virou moda a acusação ao presidente venezuelano Hugo Chávez de coibir a livre expressão em seu país com o "fechamento" de meios de comunicação. Ele pode ser desafiador, mas não seria insano.

Devem ser frequentes, contudo, as erratas de rodapé no dia seguinte dos matutinos com a correção de que se trata de uma prerrogativa de Estado para a não-renovação de licenças de emissão, como houve com a RCTV, e não de medidas autoritárias.

É de se esperar de Chávez uma postura solidária com o povo iraniano e o repúdio às sanções covardes impostas por EUA ao território onde já prosperou a Pérsia. Instalaram-se novas fábricas para produção de leite na Venezuela em parceria com o Irã a despeito de pressões de uma "comunidade internacional" para o sacrifício de países rebeldes.

Conquanto distante de culpar os países pujantes dos erros cometidos por nós, latino-americanos, é necessário reconhecer que a forma como nossos países se inserem no mundo já nos provê de desvantagens colossais. O conformismo, a corrupção endêmica, o fetiche do crescimento econômico acima da distribuição de oportunidades ruem a esperança de poucos.

As atividades autênticas de resistência são estigmatizadas ou negligenciadas: os movimentos guerrilheiros, as reivindicações indígenas, as ações de organismos de interesse público, as propostas de democracia direta e participativa, as reformas constitucionais feitas por governos de esquerda porque ninguém faz barulho quando esta iniciativa é de conservadores.

A mediação das relações políticas por grupos comunicacionais que nada entendem disso ou que amparam algum candidato a cargo eletivo induz a um cenário depressivo de cidadania. Por isso se fala de "Partido da Imprensa Golpista" no Brasil e da Globovisión como emissora de televisão desestabilizadora na Venezuela.

Sejamos fiéis à consciência. O primeiro passo é escutá-la, portanto livres da voragem de quem se considera privilegiado neste mundo.

Paroxismo de Esperança ( Bruno Peron Loureiro )

Crônicas & Opiniões | Fonte: Bruno Peron Loureiro ( analista relações internacionais ) :: 28/06/2010

 Bruno Peron Loureiro - analista relações internacionais A proclamada "liberdade" é a que permite que alguns países brinquem com nações inteiras como se estivessem jogando pôquer, inclusive com recurso a blefes. Os modos pueris fazem-nos acreditar que, se a partida não acabar bem, basta recolocar as cartas.

O descaso com nações soberanas, ainda que pequenas e islâmicas, é típico de pujantes caras-de-pau, que, no estilo EUA no de achar que governa o mundo, fustigam, por exemplo, o Irã impondo-lhe sanções econômicas deletérias e imprudentes.

A mensagem é cada vez mais clara aos desavisados: ou você está do lado da gangue que controla o mundo - a exemplo do insalubre Conselho de Segurança da ONU - ou você é um inimigo a ser ceifado. Quem suporta tamanhas impertinências nos tempos atuais?

Eis que surgem alguns estadistas para frear essa tendência horripilante de afunilamento do mundo, como Chávez e Lula, que, apesar de falharem como qualquer ser humano, são idôneos e estão munidos de uma assessoria proficiente de relações internacionais e política exterior.

Seguidos das falsidades vêm os fatos moralizadores. Portanto a crítica ao neoliberalismo, a consideração inédita de várias cosmovisões e a atenção a grupos humilhados historicamente na América Latina são fenômenos que alcançam a maior intensidade.

Não se confunda globalização com ocidentalização do mundo. O primeiro é um processo que tem encurtado distâncias, e permitido o contato, a instantaneidade e o intercâmbio entre diferentes, enquanto o segundo é a Doutrina Monroe que não se apaga.

Em reunião recente em Quito, capital do Equador, os chefes de Estado da União de Nações Sul-Americanas continuou o labor na formação de um Parlamento, que reforçaria as instituições deste mecanismo de integração, enquanto se fortalece o Sistema Único de Compensação Regional (SUCRE), cuja moeda tenta substituir o dólar ao menos nas transações dos Bancos Centrais.

Enquanto a atenção mundial desvia-se ao pretenso risco de desenvolvimento de programa nuclear pelo governo iraniano, cujo país abriga riquezas culturais da antiga Pérsia, poucos se incomodam, ao que tudo parece, com que EUA palpite sobre meio mundo.

Pela América Latina se levam as coisas tão a sério que, em temporada de Copa do Mundo, o Brasil para afim de que todos possam assistir aos jogos da Seleção. Comércio e indústria fecham as portas, praticamente todos os lares ligam seus televisores para acompanhar as estrelas futebolísticas correndo no campo. Até quem detesta futebol veste um nacionalismo insólito. Ao longo de boa parte do ano, no entanto, a expressão tupinica é de lamentação.

Pouco se falou de uma manifestação pacífica de sul-africanos que haviam sido contratados temporariamente pela Federação Internacional de Futebol (FIFA), mas foram reprimidos violentamente pelos policiais no país que sedia o campeonato. Aqueles protestavam contra o não cumprimento do acordo salarial da FIFA, que pagou menos que o valor prometido.

Os organizadores tentam ocultar estas atrocidades do evento, que tem uma fonte absurda de arrecadação por conta de bilheteria, publicidade e direitos de transmissão. Não é novidade que a Copa do Mundo é um negócio altamente lucrativo.

O gosto pelo futebol, como o que se pode ter por qualquer esporte, é saudável, mas os corsários gananciosos não enxergam limites. Tudo o que buscam é viver como príncipes às custas de um povo bestializado, dopado pelos seus "craques" e "ídolos".

Neste ínterim e num dos extremos da América Latina, o México é palco de uma guerra sangrenta de e contra o narcotráfico e de ocorrências diárias de genocídios e outros crimes bárbaros de pessoas envolvidas com o tráfico de drogas.

A cultura do dinheiro a qualquer custo, tão própria de tendências "ocidentalizadoras", tem feito vítimas em várias partes do mundo, como o massacrado povo afegão, a mutilada soberania iraquiana e a sentenciada nação iraniana.

Quanta injustiça! Tudo o que fazemos é encher-nos de esperança. Façamos diferente: Comecemos, pela ação, a oferecer negativas aos impostores da evolução humana.

Hausto de Mediocridade ( Bruno Peron Loureiro )

Crônicas & Opiniões | Fonte: Bruno Peron Loureiro ( analista relações internacionais ) :: 15/06/2010

 Bruno Peron Loureiro - analista relações internacionais Se o poder fosse palpável e visível, tatearíamos e veríamos redes intricadas que nos restringem o movimento e o pensamento. O maior artifício da manipulação é fazer tudo parecer natural ao contrário da natureza das coisas.

O idioma é um recurso cultural que devemos resguardar e valorizar, visto que o português no Brasil está ameaçado pela desconsideração de seus falantes. Talvez pelo fato de o poder ser (quase) imperceptível e invisível.

Nenhuma colônia existe sem a renúncia dos colonizados. Por mais rendida que aparente, a submissão completa de um povo ocorre na derrota do último homem. Não haveria, caso contrário, heróis na civilização brasileira, como Tiradentes.

A aplicação irresponsável de estrangeirismos tem situado o Brasil como um país de língua inglesa de terceira classe porque os EUA já são de segunda.

Tão logo surge uma palavra nova em informática ou publicidade, inclusive nas relações mais rotineiras, contamos com o termo correspondente em português. É verdade que os idiomas são dinâmicos! Assim como assumem com naturalidade que, por este argumento, um termo estrangeiro pode-se agregar à nossa língua, esta também tem a capacidade de criar o seu próprio.

Abandonamos, contudo, expressões similares em português, que são por vezes mais bonitas que as inglesas ou ao menos tanto quanto, em prol de um vocabulário forâneo e desmerecedor de nosso idioma.

O estrangeirismo desnecessário ou excessivo, portanto, denuncia o desvio das normas e do vocabulário de português que amiúde se deve ao desconhecimento.

O funeral do idioma português no Brasil é um sintoma de que até o que os tupinicas tínhamos de mais valioso - a cultura e a criatividade - tem sido substituído pelo "chique" ou o "padrão internacional" do francês, o inglês ou o italiano.

Ainda dá tempo, no entanto, de frearmos esta tendência dilacerante.

Justifica-se por que Portugal foi o país que ofereceu maior resistência à reforma ortográfica, que visa a simplificar a grafia e unificar as regras do idioma. Até para o termo "Links", do internetês, eles usam "Ligações". Que respeito!

Apesar de a mudança mais considerável incidir no lado de Portugal, os portugueses hesitaram em aceitar uma reforma ortográfica vinculada a país que se tem convertido numa Gringolândia de terceira categoria, o Brasil.

Este é o momento de aproveitar a reforma ortográfica que vigora desde janeiro de 2009 para fortalecer o idioma português em vez de entregá-lo a falcões famintos.

Brasil, Portugal, Guiné Bissau, Angola, Moçambique, São Tomé, Príncipe, Cabo Verde e Timor Leste são contemplados com a chance de padronizar o idioma português, tão belo e prodigioso.

Quando bem empregado, o idioma português demonstra a autonomia e a riqueza culturais de seus falantes. A leitura habitual e o uso de dicionário engrandecem a experiência e o vocabulário, conquanto duas ou três páginas diárias.

Não é à toa que cresce o interesse no aprendizado de português em países que querem estreitar as relações culturais, econômicas e políticas com o Brasil.

Sejamos coadjuvantes dessa troca benéfica e proveitosa. Defendamos nosso idioma, respeitemo-lo e promovamo-lo antes de que até disso se riam os cidadãos de países ricos que falam dos "terceiro-mundistas".

Tupinica tem mania de fazer piada de português, mas convenhamos: eles nos impuseram seus donos de engenho, sua língua e sua religião. Ainda levaram o ouro.

Frente a este passado que tende a repetir-se sob o domínio de outra metrópole, que horizonte se nos abre?

Enquanto não nos concentrarmos na preservação da riqueza cultural e na sintonia daquilo que podemos manifestar como identidade soberana, seguiremos os amos intermitentes, que ora são daqui ora dali.

A grafia antiga continuará aceita até dezembro de 2012. Prezemos para que a integridade do idioma português não esteja somente em rodapé de livros didáticos.

A construção de um país digno e de uma comunidade de países de língua portuguesa demanda a sua participação, caro leitor e benfeitor.

Os países hispano-americanos interagem muito melhor que os de idioma português com seus discos, filmes e livros, para citar bens culturais que circulam em espanhol.

O Brasil dá as costas a seus irmãos legítimos da América Latina.

A dianteira curva-se, porém, a estrangeirismos espúrios.

Acima do Paralelo 38 ( Bruno Peron Loureiro )

Crônicas & Opiniões | Fonte: Bruno Peron Loureiro ( analista relações internacionais ) :: 07/06/2010

 Bruno Peron Loureiro - analista relações internacionais A razão soterra o "senso comum" no entendimento dos fenômenos das relações internacionais.

Nunca é demais lembrar que o mundo nos é contado segundo as lentes de grupos e países dominantes. Se a mentira for sobre o vizinho, logo descobrimos a impertinência. Se for sobre um fato longínquo, uma versão mais precisa foge de nossa alçada.

Assim se cultiva o "senso comum" de que Mahmoud Ahmadinejad é um estadista perigoso, ou Saddam Hussein mereceu cada centímetro da corda que o enforcou por uma justiça ilegítima, ou a Coreia do Norte hospeda um regime insatisfatório que não condiz com a onda democrática.

O impasse reside em ceder à verticalização do mundo imposta pelo modelo euano ou escutar a razão que brada dentro de cada cidadão na capacidade estimada de raciocinar e entender que há muitas outras nações que merecem respeito apesar do dissentimento de EUA.

Em 27 de julho de 1953, assinou-se um armistício que pôs fim à Guerra da Coreia. Deflagrou-se, entre 1950 e 53, um conflito típico de "guerra fria", em que se tentou arregimentar cada metade do território coreano para um dos dois sistemas: capitalista ou socialista.

Estados Unidos e União Soviética tomaram respectivamente os territórios ao sul e ao norte do paralelo 38. Desde então, uma linha divisória imaginária separa o que antes mantinha unidos amigos e familiares.

A Coreia do Norte alcançou, desde a década de 1970, a erradicação do analfabetismo e a garantia de acesso à saúde a todos pelo Estado. Estas conquistas norte-coreanas nos fazem questionar o que entendemos por "pobreza", uma vez que as críticas principais ao regime de Kim Jong Il referem-se ao empobrecimento da população pelo regime dito "comunista" e ao desenvolvimento de um programa nuclear.

Efetivamente se deseja um regime político mais participativo e transparente por observadores forâneos, ainda que haja alguns índices sociais satisfatórios no governo de Kim Jong Il. O receio, porém, justifica-se pela classificação da Coreia do Norte no "Eixo do Mal", juntamente com Iraque e Irã, pelos porta-vozes da agressiva e desrespeitosa política exterior euana.

A fim de esquentar o caldeirão, circula na rede a notícia de que um torpedo da Coreia do Norte afundou um navio de guerra sul-coreano e causou a morte de 46 pessoas em 26 de março de 2010.

Desde então, Coreia do Sul rompeu relações comerciais com seu vizinho do Norte e aumentou o número de militares na fronteira, que já era militarizada. As maiores provocações ocorrem no mar Amarelo, a oeste da península, onde ambas Coreias testam seu armamento e se posicionam em clima de conflito.

Pyongyang rompeu relações diplomáticas com Seul e - o ponto mais delicado - desfez o pacto de não agressão que emergiu no armistício de 1953.

Não tardou para que a tática isolacionista das sanções fosse proposta por EUA e seus apaniguados. A China, ainda que membro permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas, resiste a apoiar sanções contra Coreia do Norte devido a afinidades históricas.

Coreia do Sul, China e Japão aliaram-se nas negociações com Coreia do Norte. O discurso gira em derredor da manutenção da paz e da estabilidade na região.

A informação histórica é de que tanto China como Japão foram países que dominaram a Coreia por longos anos. O Japão o fez a partir do momento em que se modernizou e adotou um padrão de desenvolvimento ocidental que, ainda hoje, demanda a subordinação comercial de territórios além da fronteira nacional.

É o que explica por que é necessária uma frota cada vez maior de caminhões carregados de minério de ferro da América Latina para comprar os componentes eletrônicos japoneses, com elevado valor agregado.

O conflito entre as Coreias promete ainda algum tempo de amargura. Em qualquer dos lados, apodrece as garras do ser humano enquanto predador da virtude de solidariedade.

A recompensa da batalha final entre as Coreias é de que as populações cindidas se juntem para formar uma nação grande e coerente. Sem ingerência externa.

Nenhuma história de mazelas é tão eficaz como para deixar um presente imaculado.

Tailândia e os ideiais nobres ( Bruno Peron Loureiro )

Crônicas & Opiniões | Fonte: Bruno Peron Loureiro ( analista relações internacionais ) :: 31/05/2010

 Bruno Peron Loureiro - analista relações internacionais O conflito na Tailândia acende o candelabro da esperança de distribuição da riqueza no país, ainda que se faça uso do recurso derradeiro da força física. O mérito desta nação é o de deixá-lo aceso entre tantas adversidades.

Desde meados de março de 2010, os confrontos entre "camisas vermelhas" e soldados do governo renderam mais de 80 mortos e 1.800 feridos, embora a insatisfação daquele grupo com a gestão pública atual venha de 2008.

Os "camisas vermelhas" protestam em Bangcoc, capital da Tailândia, contra a intervenção militar e monárquica na política e reivindicam eleições diretas. Em vários sítios, usaram-se barricadas.

Como é de se esperar na política, dão-se-lhe limites à oposição para se expressar. Uma vez superadas as restrições execradas pela verdadeira democracia, as forças do Estado assumem posição de confronto. Em países de governos golpistas, como Honduras e Tailândia, os instrumentos de coerção política voltam-se contra os detentores legítimos do poder, o povo.

Houve um golpe militar em 2006 que derrubou o primeiro-ministro Thaksin Chinnawat, que governava desde 2001 e tinha apoio da parcela mais pobre do país. Este governo, como em poucos outros momentos na história política contemporânea tailandesa, deu enorme atenção às classes populares, por exemplo na universalização do acesso à saúde.

O conflito reflete as desigualdades entre os pobres do campo e os ricos da capital. História social lutuosa que se repete em vários rincões do mundo. Infelizmente a Tailândia se irmana com a América Latina e outras regiões onde o fator desenvolvimento humano não é prioridade.

É tão grande o desnível de representatividade no governo tailandês que o atual primeiro-ministro Abhisit Vejjajiva, que estabeleceu toque de recolher das 21h às 5h, provoca a insatisfação dos partidários de Thaksin.

Tailândia, único país do sudeste asiático que não teve metrópole europeia, é palco de um confronto clássico de representação dos interesses desarmônicos de uma sociedade e de uma organização política avessa à participação popular.

Os protestos, porém, têm sido tão impactantes que levaram ao cancelamento da última reunião da Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN, em inglês), mecanismo asiático de integração do qual a Tailândia faz parte.

Por que um conflito na Tailândia, cujo país é parcamente mencionado na pauta de notícias, tem recebido tanta atenção mundial? Tara pelo conflito e a guerra onde quer que o espetáculo se manifeste?

Alguns países asiáticos conquistam taxas consideráveis de crescimento econômico, como China e Índia, o Japão é uma potência mundial, e os EUAnos(1) sofreram uma derrota histórica na Guerra do Vietnã.

O fortalecimento de blocos de integração na Ásia, sobretudo a ASEAN, e a inserção de alguns de seus países em rodadas internacionais de negociação econômica e política conferem importância à região.

Com receio de dizer pouco, é necessário reabastecer o fôlego que resta a propósito de promover modelos que nos ensinem algo às sociedades ocidentais sem qualquer indício de superioridade ou inferioridade.

Em qualquer hemisfério do orbe, temos razões para lutar por mudanças sociais antes do estouro de uma situação de que já se desconfiava como insustentável.

A humanidade nunca alcança um estado ideal porque cada mente é produtora de desejos próprios e por vezes conflitivos.

Na Tailândia, a luta denuncia os abusos do poder por um governo ilegítimo e a concentração da riqueza em detrimento de cidadãos do campo.

A virtude está na legitimidade da reivindicação.

É de ideais nobres que a humanidade precisa.

(1) Como brasileiro, também me considero "americano", digno de pertencer ao "Novo Mundo". O mesmo serve para qualquer outro nativo/ naturalizado deste continente amplo e diverso.

Enquanto isso, a divisão do Pará ( Bruno Peron Loureiro )

Crônicas & Opiniões | Fonte: Bruno Peron Loureiro ( analista relações internacionais ) :: 24/05/2010

 Bruno Peron Loureiro - analista relações internacionais A divisão do Pará em três estados é um tema que se discute há vinte anos no Congresso Nacional. Temos agentes travestidos de "representantes do povo" que sustentam este dislate como única solução para o suposto "abandono" da região.

Seus argumentos são sofisticados: dizem que o Pará é um estado grande, por isso ingovernável, o aumento populacional tem sido descontrolado e o Estado não chega até a população de maior parte do território.

O espectro ideológico oscila da defesa de Estado ausente para Estado ubíquo. Dois modelos execráveis. A discussão inspira ares partidários e deixa, portanto, de ser frutífera. O interesse público beira a alucinação.

Não fosse o incontornável erro de cálculo, os argumentos seriam convincentes.

A política para o desenvolvimento da região Norte já começou equivocada porque se fundamentou na exploração e no povoamento em vez da preservação ambiental.

Manaus é o exemplo de uma cidade criada por incentivos fiscais à indústria numa área que deveria ser de proteção da rica fauna e flora tupinicas. Levou-se ao Norte um modelo de ocupação em prol da "soberania".

O conceito de "soberania" é invocado em local e hora oportunos, porém pelos que menos se preocupam com ele. Sabemos que estrangeiros têm passe livre em reservas indígenas de Roraima, mas tupinicas são barrados.

A proposta de plebiscito visa a consultar a vontade popular para a divisão do Pará em dois novos estados: Carajás, no sudeste, com capital em Marabá, e Tapajós, no oeste, com capital em Santarém.

O Pará passaria a compor somente a região nordeste do estado atual. Provavelmente os autores desta "façanha" impulsionaram seus desígnios pela criação anterior de Mato Grosso do Sul e Tocantins.

É preferível que o Estado corrupto tupinica esteja pouco presente a que seja venal. Pena que esta escolha não cabe a nós, singelos convocados à meia-cidadania do voto.

Os desejos politiqueiros superaram a expectativa. O raciocínio de que o aumento de 17 para 28 deputados federais, de 3 para 9 senadores, atrairia mais recursos para a região ignora o fiasco do funcionalismo público no Brasil.

Trata-se de uma característica cultural que inverte as funções de modo que a categoria oculta o dever de servir à coletividade. Em vez disso, o genuíno detentor do poder político - o povo - recebe amiúde tratamento clientelar e aviltante em troca da "estabilidade" que se lhes confere aos admitidos na carreira.

Se o estado de São Paulo, que é bem menor que o Pará, não garante educação, saúde, saneamento, segurança, etc públicos de boa qualidade, aonde querem chegar os que defendem que a cisão do Pará garantiria esses serviços?

Embora creiam que o interesse é velado, não é sobrenatural o esforço de reconhecer que os defensores da divisão querem demarcar as riquezas produzidas ou potenciais no Pará em nome da aproximação do governo ao cidadão.

Altamira, onde se autorizou a construção da usina hidrelétrica Belo Monte, fica na área onde se quer criar o estado de Tapajós. Parte do território que se pretende segmentar é rica em minério de bauxita, ferro e níquel, que se escoa pelo Maranhão.

O modelo de Serra Pelada, que se popularizou na década de 1980 pelo garimpo de ouro, repete-se na alma nascitura de um Pará que clama por distribuição de riquezas em vez da marginalização do que não serve.

O estado paraense dispõe de 144 municípios onde emerge a esperança de união e o alento da apropriação responsável de suas riquezas humanas e naturais.

Estanquemos a reprodução de modelos de desenvolvimento que exaurem os recursos e o fôlego daqueles que acreditam na visão coletiva.

Resgatemos o sentido do público dos que, através do poder do discurso, tergiversam seu valor em prol do inchaço da máquina estatal.

Ao povo do Pará, a esperança é uma flâmula que não se apaga.

Afinidades de Brasil e Caribe ( Bruno Peron Loureiro )

Crônicas & Opiniões | Fonte: Bruno Peron Loureiro ( analista relações internacionais ) :: 23/05/2010

 Bruno Peron Loureiro - analista relações internacionais A política exterior do governo Lula é uma das esferas de maior inflexão em comparação aos que o precederam. Afortunadamente sua orientação tem sido a de aproximação às regiões às que não se dava a atenção merecida, como América Latina, Caribe, África e Ásia meridional.

Tal posicionamento de Lula e sua equipe de relações internacionais tem desvelado que o mundo possui muito mais que poucas estrelas, que, como Estados Unidos, Japão e países da Europa ocidental, querem controlar a cultura, a economia e a segurança internacionais.

Enquanto isso no Brasil, pisa-se no acarajé para o deleite em "drive thrus" e "sushi bars".

Lamentavelmente uma parte considerável dos dirigentes tupinicas dedica dinheiro público para servir aos interesses das políticas culturais e econômicas de países centrais, como Estados Unidos e França, enquanto a contrapartida é pequena ou inexistente.

No entanto, em 26 de abril de 2010, houve a 1ª Cúpula Brasil - Comunidade do Caribe (CARICOM) em Brasília. Participaram também representantes de países continentais, mas considerados caribenhos e membros do bloco, como Belize, Guiana e Suriname.

A Comunidade do Caribe é um organismo de integração que surgiu em 1958, formalizou-se juridicamente por meio de tratado em 1982, e hoje compreende 14 países. O Brasil é membro observador desde 2006.

Lula merece ovação cada vez que dá um passo na cooptação de países simpatizantes com o projeto de um novo sistema financeiro mundial, a defesa da soberania da América Latina e a consolidação da democracia no continente americano (felizmente não dos estadunidenses que arrogantemente se intitulam "americanos").

Apesar das críticas que tem recebido, seus propósitos visam os mais pobres e desprestigiados ao mesmo tempo em que iça a bandeira nobre de luta mundial. É um esforço demorado, mas que promete efeito duradouro.

Enquanto o Brasil padece de uma coleção de políticos genuflexos - e que sustentam a mais tapada convicção de que o que fazem é o melhor para a nação - aos ditames dos países centrais, Lula mostra que é possível seguir caminho alternativo e mais digno.

O Caribe - alguns nomeiam-no Antilhas - abrange países que foram colonizados por Espanha, França, Holanda, Inglaterra e Estados Unidos. Sua riqueza e diversidade cultural são imensas.

Lula convocou os países caribenhos a construir uma "nova ordem latino-americana e mundial" e, durante a Cúpula, garantiu que seguiria atuando politicamente, apesar do desfecho de suas duas gestões no final deste ano.

O mandatário demonstrou o interesse do Brasil de ingressar ao Banco de Desenvolvimento do Caribe e alavancou a assinatura de 47 acordos entre o Mercado Comum do Sul (MERCOSUL) e CARICOM.

Anexas às conquistas políticas, costumam acompanhar as pautas econômicas. O comércio entre Brasil e CARICOM, em 2009, foi de US$5,2 bilhões, mas US$4,4 bilhões foram de exportações tupinicas.

A Cúpula foi um evento importante no caminho de construção de uma nova ordem mundial menos concentradora e mais responsável perante a natureza.

Entre os assuntos abordados, propôs-se o reforço conjunto da ajuda ao Haiti, o apoio do Brasil no combate à SIDA/ AIDS no Caribe e a discussão sobre mudanças climáticas.

A reunião de abril rendeu o comprometimento dos assistentes de realizar outra em 2012 e ensejou um mecanismo de consultas políticas regulares entre Brasil, que é país observador, e CARICOM.

É grande o esforço de transcender o discurso da integração latino-americana a favor de caminhos contratuais e pragmáticos, ainda que quase sempre a iniciativa tenha cunho econômico.

Pelo menos, a mira está boa e o alvo deixa de concentrar-se nos antigos amos da América Latina.

As críticas a posturas desta índole emergem arquejantes e logo reconhecem seus limites.

Precisamos de mais videntes da irmandade e de pessoas que afastem as promessas infundadas dos que só querem levar nossas riquezas sem oferecer nada saudável em troca.

Para este fim, é necessário estreitar o diálogo com nossos semelhantes e formar laços de solidariedade que transbordam as fronteiras do país e da região.

Repasto dos poderosos ( Bruno Peron Loureiro )

Crônicas & Opiniões | Fonte: Bruno Peron Loureiro ( analista relações internacionais ) :: 09/05/2010

 Bruno Peron Loureiro - analista relações internacionais O crescimento econômico é tema habitual de meios jornalísticos e terreiros políticos.

A informação de que o Produto Interno Bruto (PIB) de um país aumenta comemora-se como um dogma de sucesso internacional. Descortina-se, porém, o véu e aparecem os grupos limitados e poderosos que se beneficiam da população exangue.

Não se deve confundir crescimento econômico com distribuição da riqueza. Os dois critérios de avaliação são independentes e o primeiro frequentemente anula o fiasco do segundo.

A contenda comercial entre EUA e Brasil sobre o subsídio daquele país a seus produtores de algodão tem rendido uma postura laxa deste. A Organização Mundial de Comércio (OMC) autorizou que o Brasil retaliasse com o aumento de impostos sobre os produtos euânus de modo a compensar a perda.

No sentido contrário ao bom senso, o Brasil acaba de protelar mais dois meses o início da retaliação com o argumento de que EUA tem participado das negociações apesar da inflexibilidade para baixar os subsídios. É previsível que as perdas recaiam sobre o lado tupinica e tudo se normalize brevemente como se nada tivesse acontecido.

A presidente argentina, por sua vez, agarra oportunidades de defender seu país a unhas e dentes. Cristina Fernández pleiteia a renegociação ao derredor da pretensão de posse das ilhas Malvinas e levou à Corte Internacional de Justiça de Haia o pleito da instalação de uma usina de papel pelo Uruguai na margem de um rio fronteiriço.

O mandatário boliviano, em seu turno, estabelece acordos de aparelhamento militar com a Rússia, enquanto se discute se a reconstrução do Chile após os terremotos se fará ou não com base na "mudança" que Sebastián Piñera prometeu nas eleições presidenciais.

Apesar da prepotência dos poderosos onde quer que se manifestem, os grupos mais fracos e despossuídos alçam a voz em protesto e resistência. A opressão perde a naturalidade. O povo reconhece que a ignorância que se lhe impõem traz malefícios e não comodismos.

A névoa de cinzas que recobriu a Europa pela erupção de um vulcão na Islândia provocou perdas milionárias nalgumas economias. Fazem-nos crer que o prejuízo dos donos de aerolinhas foi maior que a impotência dos viajantes que tiveram que esperar dias para o embarque, muitos dos quais sem reserva de dinheiro.

O cinzeiro vulcânico na Europa aparentemente causou danos ao continente rico, enquanto a lava dos problemas sociais basilares não cessa na América Latina. As sociedades escandinavas são tão organizadas que o suicídio é um dos temas que mais lhes preocupam.

Comemoram-se os cinquenta anos de construção da opulenta capital brasileira, Brasília. Os "candangos" migraram pela necessidade de prosperar e ânsia de prosseguir na construção do ainda sonhado Brasil. Mãos calejadas que são cúmplices de um país merecedor e progressista.

Por que atribuímos aos outros responsabilidades que são, ainda que parcialmente, nossas? Se o poder corrompe, encanta e ludibria os despreparados, por que confiamos aos poderosos funções que nos cabem, como a da construção da democracia?

Questionam-se autoridades, como a obstinação justa do Irã de desenvolver seu programa nuclear para fins pacíficos e a ascensão da China como concorrente direto das potências ocidentais no que é a condução ao pé da letra de um padrão de desenvolvimento econômico.

A indústria da China explora internamente a mão-de-obra barata e a flexibilização trabalhista, enquanto os euânus poderosos abusam da divisão internacional do trabalho para instalar fábricas em Bangladesh, Índia, Tailândia, Vietnã e México.

EUA privatiza os lucros em nome de um modelo capitalista desumano e relega a desgraça a países "terceiro-mundistas e atrasados". A explotação é tão eficaz que ainda conseguem atrair turistas encantados aos castelos da Disney World. Prevalece o domínio cultural.

Finda o culto aos poderosos impiedosos e incautos.

Desabrocha a consciência dos que defendemos a grandeza moral.

Manipuladores de Ideais ( Bruno Peron Loureiro )

Crônicas & Opiniões | Fonte: Bruno Peron Loureiro ( analista relações internacionais ) :: 07/05/2010

 Bruno Peron Loureiro - analista relações internacionais A questão migratória na fronteira entre México e Estados Unidos é aviltante e delicada. Não é simples sacar ilações de um contexto em que os colonizadores tiveram matrizes culturais completamente distintas e a fronteira de 3.000 km divide nações que pouco se entendem.

O modo de vida e outros produtos estadunidenses transpõem a linha divisória, inclusive com a venda de frutas em supermercados. México envia-lhes, em contrapartida, milhões de trabalhadores de baixa qualificação para exercer atividades braçais.

Do ponto de vista dos que advogam leis anti-imigratórias, não se deve acolher o migrante que busca melhores condições de vida que as que se lhe oferece seu país de origem. Assim, cada país é responsável pela garantia da qualidade de vida de seus cidadãos ainda que deploráveis.

Estes argumentos, porém, são desprezíveis e discriminatórios. É o momento oportuno para conhecer quem são os EUA, país que extrai as riquezas humanas e naturais de meio mundo a fim de sustentar um padrão de desenvolvimento concentrador e obsoleto.

Desabrocha o custo da opulência de pujantes em detrimento da marginalização de despossuídos. Nos EUA, só sobrevivem os que tiverem condições de pagar.

A última afronta ao bem-estar da espécie foi o projeto de lei migratória 1070 do republicano Russell Pearce no estado de Arizona. Por 17 votos a 11 e apesar da oposição de todos os votantes demócratas, a lei autoriza que policiais peçam documentos de identidade de qualquer um na rua para inibir a imigração ilegal.

O transporte e a contratação laboral de imigrantes ilegais passam também a ser ações criminosas além da falta de documentos. Com esta lei, tenta-se encurralar os "indocumentados".

Este projeto de lei foi considerado a medida anti-imigratória mais rígida já tomada nos EUA para controlar a imigração ilegal. O atropelo das decisões estadunidenses no âmbito migratório baseia-se no dado de que há ao derredor de 11 milhões de imigrantes ilegais nos EUA.

Pergunta que não cala é a de qual será o critério dos policiais ou agentes de migração para parar alguém na rua e solicitar os documentos de identidade.

Grupos de direitos civis, defensores da imigração e oficiais da Embaixada Mexicana nos EUA demonstraram preocupação com os rumos que a questão tem tomado. O medo, a perseguição e a desinformação são tônicas da sociedade estadunidense, como se depreende das fórmulas pasteurizadas de seu cinema.

Críticos do projeto de lei no Arizona afirmam que a medida é inconstitucional e tende a práticas discriminatórias principalmente contra os "Latinos" ou oriundos de países latino-americanos ainda que de gerações anteriores e, portanto, estadunidenses de nascimento.

Incompreensível é a fórmula com a qual um país essencialmente racista como EUA torna-se centro das atenções mundiais e pretenso baluarte de desenvolvimento. Antes são os paladinos da desgraça, que é tão grande quanto a de nações prostradas que recorrem frequentemente à "ajuda" financeira do ente sanguinário mas "exemplar".

EUA querem tudo menos que migrantes de países "terceiro-mundistas" cruzem a fronteira em busca do "sonho americano" ou daquilo que lhes foi negado por seus países de origem porque naquele não é mais que ilusão.

Os euânus desvairados são capazes de exibir a impiedade sem pudor com leis anti-imigratórias como a 1070 sem que o efeito lhes cause qualquer sentimento de compaixão sobretudo com aqueles de quem se lhes arrebataram 50% do território, os mexicanos.

O afã dos estadunidenses de dominar o mundo esbarra na pane de seu próprio sistema, que protege os produtores de algodão e contradiz a receita de "livre comércio". Poucos ainda acreditam nesses prestidigitadores e manipuladores de ideais.

Eles têm todo direito de defender seus cidadãos e seu território, mas com decência e respeito.

Confinados pelo Mata-burro ( Bruno Peron Loureiro )

Crônicas & Opiniões | Fonte: Bruno Peron Loureiro ( analista relações internacionais ) :: 04/05/2010

 Bruno Peron Loureiro - analista relações internacionais A responsabilidade é diretamente proporcional à consciência dos atos cometidos, dizem-nos os entes amigos que nada mais querem que prosperemos e amemo-nos uns aos outros.

O planeta adoece enquanto se extrai a maior porção tecnicamente possível de sua seiva: derrubada de árvores, poluição desmedida, apropriação de fontes não-renováveis de energia, industrialização e venda de produtos maléficos ao consumo.

A humanidade caminha em passos largos na direção errada. O desenvolvimento moral não tem acompanhado o técnico. Pior que isso: poucos sabem onde está o bom exemplo.

O Instituto Oceânico e Atmosférico Nacional estadunidense (NOAA, do acrônimo em inglês) informou que, no mês de março, as temperaturas globais foram as mais altas desde que começou a medição em 1880 para este período do ano.

Derrota para a espécie que se crê a mais evoluída do planeta.

Enquanto isso, Barack Obama planeja vulgarizar viagens espaciais injetando dinheiro em empresas privadas do setor. O estadista quer enviar uma missão tripulada a Marte e, logo em seguida, astronautas a algum asteroide.

Foi-se o tempo em que a escalada ao Everest e outras proezas eram atributos de próceres, porquanto hoje a pretensão é de abandonar a agoniada Terra em prol de passeios bilionários ao espaço sideral.

O ser cauto evita julgar outrem, porém não esconde que o débito dos seres inescrupulosos é colossal. Cabe-nos perseverar no bem ainda que desconfiemos de que o impacto é menor do que o provocado pelos pujantes, que infelizmente têm maior visibilidade.

Este raciocínio tentativo leva-nos primeiramente a discutir as ações antrópicas no globo a fim de, em seguida, assinalar o desperdício de responsabilidades pelos líderes estadunidenses, ávidos de destruição e ganância, entre outros dejetos da Terra.

A caminho de superar este estágio e como cidadãos de países "terceiro-mundistas", resta-nos resistir aos tentáculos da medusa predadora que, desde sua posição de supremacia, fagocita a nossa independência e soberania.

O introito administrativo de Sebastián Piñera propôs, ao contrário do que se esperava, o aumento de impostos de grandes empresas para que apoiem a reconstrução do Chile.

Frente à devastação sísmica sem precedentes que assolou a população chilena de poucos recursos, atitudes demonstram que, independentemente de qual seja o espectro ideológico dos tomadores de decisão, é premente exigir mais dos pujantes.

Por sua vez, a rixa entre os governos de Colômbia e Venezuela traz sua manifestação mais recente: autoridades colombianas recomendam precaução aos turistas vernáculos que cruzam a fronteira com o pretexto de que oficiais venezuelanos os têm interrogado e encarcerado.

A repressão aos opositores na Colômbia e a alcunha de "terrorista" a qualquer indivíduo ou grupo simpatizante das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) sinalizam que a oposição é taxada de criminosa neste país.

A paisagem tupinica requer parágrafos exclusivos tamanho é o escancaramento onde a justiça é ignominiosa. Algumas figuras públicas são cientes de sua condição criminosa se ingressarem noutro país, porém aqui são andarilhos tão soltos como urubus que revolvem atrás de carniças.

Diversão maior aos seres cônscios não existe que a crença de espectadores estrangeiros de que o Brasil é uma "potência emergente". Qualquer olhadela in loco desmistifica este papel e reconhece que o país padece dos problemas sociais mais básicos.

O Brasil assiste à disputa precipitada do conteúdo gasoso e petrolífero da recém-descoberta camada pré-sal, enquanto a Argentina segue lutando pela recuperação das Malvinas.

Mal caem as lágrimas celestes e os terráqueos disputam quem estenderá as mãos para agarrá-las. A busca insaciável da mão divina remonta à época em que o Egito era a "dádiva do Nilo".

Carecemos de zelo pelo coletivo sem o qual os pujantes perpetuam-se em condições privilegiadas e tratam-nos como animais confinados pelo mata-burro. Nega-se-nos o traspasso à dignidade.

Não se submeta aos mandos de seres irresponsáveis. Reconheça seu papel como semeador de esperanças.

Tecnologias de Informação e Comunicação ( Bruno Peron Loureiro )

Crônicas & Opiniões | Fonte: Bruno Peron Loureiro ( analista relações internacionais ) :: 26/04/2010

 Bruno Peron Loureiro - analista relações internacionais Ao mesmo tempo em que o governo Lula tenta democratizar o acesso à internet banda larga nas escolas tupinicas, o Brasil ocupa a modesta posição 61ª entre os países que foram avaliados em desenvolvimento de tecnologia de informação e comunicação.

O informe do Fórum Econômico Mundial (WEF, do acrônimo em inglês) em parceria com a INSEAD (escola de negócios) considerou 133 países a fim de avaliar o impacto das tecnologias no desenvolvimento e na competitividade das nações.

Segundo o informe, o papel central das TIC é promover a sustentabilidade ambiental, econômica e social. Os promotores destas ferramentas e recursos justificam que o mundo está interligado pelas TIC, portanto é preciso entender as redes e desenvolvê-las.

Este informe de desenvolvimento econômico baseado nas TIC elabora-se anualmente desde 2001 e assume critérios que passaram a ser relevantes num mundo interconectado.

Poderíamos situar o debate não tanto nos investimentos tecnológicos setoriais senão na maneira como se aproveitam estas ferramentas e recursos na América Latina.

O triunfo cronometrado da televisão digital sobre a analógica no Brasil convive com o embrutecimento do povo através da baixa qualidade de programas comerciais que, entre outros apelos pretensamente democráticos, convocam à participação por chamadas telefônicas e sítios de internet.

Algumas emissoras de televisão desperdiçam o poder colossal que reuniram em detrimento de uma programação medíocre e comercial. Fazem-nos confundi-las com as instituições que oferecem legitimamente informações e serviços de interesse público, como quando a Rede Globo convoca a população a vacinar-se contra a gripe suína H1N1.

Os países latino-americanos obtiveram as posições piores no ranking mundial de TIC. Enquanto Bolívia teve o desempenho menos satisfatório, os melhores foram, na sequência, Chile, Porto Rico e Costa Rica.

Ainda que o porte de telefones celulares no Brasil seja elevado e o número de usuários de internet esteja entre os maiores no mundo, a tendência mundial de investimento em TIC é maior do que a ilusão de que acompanhamos as principais evoluções tecnológicas.

Os dez primeiros colocados no informe foram: Suécia (1º), Cingapura, Dinamarca, Suécia, Estados Unidos, Finlândia, Canadá, Hong Kong, Holanda e Noruega.

É preciso aprender a usar as ferramentas informativas e comunicacionais que se nos oferecem. A precaução é válida para que não se caia no risco de o lar ter televisor de última geração enquanto falte comida no prato de famílias aparvalhadas pelos meios massivos.

O índice mais negativo projeta-se desde os que têm, mas não sabem usar.

Ignora-se a presença constante dos monopólios ou o poderio das poucas empresas que detêm a capacidade de investir em infra-estrutura informativa e comunicacional.

Os tecnólogos da informação e da comunicação são capazes de pôr quinze correspondentes em Washington a fim de que nenhuma notícia estadunidense nos escape, mas nenhum nos países vizinhos do Brasil. Ou de exibir conquistas do Norte e tragédias do Sul.

Chamadas de telefones móveis ainda custam absurdamente caro, rádios comunitárias sofrem grandes óbices para a legalização, a televisão digital marginaliza emissoras de pequeno porte, as peças de computadores são majoritariamente importadas.

Pouco se discute que o parto das principais TIC se faz desde países centrais de um mundo que ainda dispõe de uma periferia dependente e com tecnologias menos valiosas para oferecer em troca no desigual comércio internacional.

A mentalidade dos governantes tupinicas é tão mesquinha e aviltada que se comprazem com a vinda de empresas, como a montadora sul-coreana Hyundai, de países que, há poucas décadas, estavam com recursos proporcionais aos do Brasil. Nossas médias empresas é que deveriam, ao contrário, receber incentivos para instalar filiais noutros países.

Não nos cansamos de ser enganados?

O Brasil segue com as pernas arreganhadas devido a políticos clientelistas e inescrupulosos. O parto acaba sendo doloroso para os cidadãos de bem.

Mereça um país melhor. Batalhe também pela união dos povos latino-americanos.

Seja um cidadão bem informado e comunique com prudência.

Armas nucleraes e propósitos comedidos ( Bruno Peron Loureiro )

Crônicas & Opiniões | Fonte: Bruno Peron Loureiro ( analista relações internacionais ) :: 19/04/2010

 Bruno Peron Loureiro - analista relações internacionais Os falíveis mortais que falam em nome dos Estados raramente são criminosos, porém teme-se que, entre outras farsas mal explicadas, as armas nucleares alcancem grupos "terroristas".

Tamanhas "ideias" - sobrestimando o uso da palavra - já foram cuspidas pela boca de personagens como a feérica secretária de Estado pangericana Hillary Clinton. Outros artífices da desgraça humana pronunciaram semelhante disparate. Quiçá passaram despercebidos.

Cada um quer fazer história de sua maneira, mas - temos que reconhecer - ela acaba sendo contada de uma única forma. Os pujantes apoderam-se da autoria.

O espectro da corrida armamentista, a guerra nuclear e qualquer outra tragédia de que o ser humano é ou já foi capaz emerge impetuosamente nas relações internacionais. Antes de qualquer especulação, vale a pena entender que a posse de armas nucleares tem habitualmente caráter dissuasivo e defensivo. Há exceções, entretanto.

Países com governantes desvairados como a Pangérica demonstraram historicamente sobre as cidades japonesas Hiroshima e Nagasáki que a ameaça não é bem o Irã ao contrário do que nos faz crer a falsa moral com o uso de todas as ferramentas de que dispõe.

Pangérica e Rússia pactuaram uma redução do arsenal nuclear. Logo aquele país convocou, em Washington, a Cúpula de Segurança Nuclear para a qual Irã, Coreia do Norte e Síria não foram convidados. O evento contou com a assistência de representantes de 47 países.

O primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu não participou da Cúpula, o que se justifica por seu despudor em cometer atrocidades. Israel, Coreia do Norte, Índia e Paquistão não aderiram ao Tratado de Não Proliferação (TNP), do qual Irã faz parte.

Irã jamais declarou, ainda, que seu programa de enriquecimento de urânio visasse a conflitos e guerras, entretanto a Organização das Nações Unidas (ONU) impôs-lhe sanções enquanto prostra-se ao mando da Pangérica.

No ínterim em que vigora o arranjo artificial entre os países, cuja abstração analistas costumam nomear "sistema internacional" na falta de uma expressão mais palpável, o TNP autoriza a posse de armas nucleares pelos cinco países que são membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU: Pangérica, Grã Bretanha, França, Rússia e China.

Deles depende a sobrevivência de todos os demais países que, curvados e indefesos, recorrem à prece para que não sejam rota petrolífera nem avessos à "democracia" e à "liberdade" (dos que oprimem e massacram impunemente).

África do Sul e Cazaquistão renunciaram a seus programas nucleares. Índia e Paquistão possuem declaradamente armas nucleares, mas não são tidos como "ameaças" pelos patrões do mundo. O recôndito Irã, ao contrário, surge como um vilão que resiste à chance de um ataque pelos pujantes monopolizadores do poder.

Enquanto sucedia a Cúpula da qual participaram ameaças comprovadas à paz mundial, o presidente iraniano Ahmadinejad dirigiu uma carta ao secretário-geral da ONU acusando os países da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) de apoiar o terrorismo na região.

Juntaram-se provas documentais em vez de logros sobre armas biológicas e químicas que nunca apareceram nem antes nem depois do enforcamento de Saddam Hussein no Iraque.

A escolha entre a posição de um país que já usou bombas nucleares e a de outro que sequer menciona a construção destas armas não é difícil quando se emprega a razão e o bom senso. É fácil situar onde está o dislate.

A publicidade nos induz a aceitar visões que encobertam a história. Cria-se a opinião pública.

Ninguém condena o país que simplesmente reduz um arsenal nuclear estratosférico, porém se execra qualquer tentativa de defesa dos mais fracos por meio da dissuasão (quem tem poder de fogo inibe ataque do inimigo). Algo está errado nesta balança.

Se nos deram uma cabeça, por que pensar com a dos outros?

Lembre-se de sempre consultar a consciência.

Ainda existem propósitos comedidos.

Quem ensina, quem aprende ( Bruno Peron Loureiro )

Crônicas & Opiniões | Fonte: Bruno Peron Loureiro ( analista relações internacionais ) :: 18/04/2010

 Bruno Peron Loureiro - analista relações internacionais É frequente a indagação sobre se as pessoas ao nosso redor ensinam ou aprendem. Na tentativa derradeira de acreditar que o instrumento de pedagogia está com eles, pasmamo-nos com o diagnóstico de que nos cabe oferecer o exemplo ainda que não acreditemos nesta prerrogativa. Padecemos destas dúvidas existenciais.

Para alguns, a nossa hora chegou de escolher entre habitar um planeta digno ou mover-se a esferas inferiores e obscuras de evolução humana. As teses apocalípticas abraçam o momento mais oportuno de vulnerabilidade da espécie. Foi-se o tempo em que se deixava para depois o que se podia fazer prontamente. As escolhas não merecem mais prorrogações. Não se adia mais o mérito dos que colherão paz e harmonia em detrimento dos excluídos de um planeta a ser promovido.

A cultura do medo que culmina nas sociedades modernas tecnicamente, mas atrasadas moralmente, está com os dias contados. As forças do bem sobrepujam as do mal. Os sintomas de ações obsoletas acumulam-se.

A Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) possui 120.000 militares no Afeganistão e Barack Obama anunciou o envio de outros 30.000. A previsão do início de retirada de tropas é meados de 2011. Neste ínterim, testemunham-se os dissabores na reconstrução interesseira do Haiti, as invasões descaradas dos israelenses a territórios palestinos, a intermitência de práticas terroristas (como a do metrô na Rússia), e outros desastres de uma espécie em decomposição.

Pudéssemos ouvir as fofocas dos outros animais enquanto agredimos o hábitat coletivo. Que dizem as formigas da nossa aptidão para o desastre? A espetacularidade das "notícias" (não confundi-las com "fatos"), como a do julgamento do casal Nardoni no Brasil, lança trevas onde havia uma fresta de luz. A impressão é de que a nossa justiça funciona. Nova ilusão depois de tantos descalabros.

A justiça divina, enquanto isso, cuida, a seu modo, das denúncias de pederastia no meio católico, mas sob o manto de uma instituição hipócrita que deposita na amnésia os conservadorismos, os dogmatismos, as torturas e as opulências que tem cultivado. Pelos trajetos ínvios da ineficiência da política federal no Brasil, tenta encontrar brecha a proposta trilionária do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) 2, que se dedicaria aos setores de energia, água, moradia e transporte.

Falta transparência para, ao menos, descobrirmos se os detentores do poder ensinam ou aprendem. Notem como a dúvida é frequente em maior parte dos contatos que temos com outrem. Ainda mais em se tratando dos caminhos opacos da política nacional. Para que se entenda o jogo, é necessário conhecer as regras. Caso contrário, o PAC 2 seria extremamente eleitoreiro e desrespeitoso com um candidato ou candidata à presidência da República Federativa do Brasil que não seja indicado(a) por Lula.

É preferível que não houvesse intromissão militar no Afeganistão e no Iraque, que o terrorismo fosse abolido e que o sensacionalismo dos que detêm o poder de comunicar tivesse a página virada. A humanidade sempre espera grandes expurgos.

Como ninguém é detentor de conhecimentos cabais nos planos material e moral, embora a hipocrisia lance sombra, toca-nos dar ouvidos aos prováveis professores e perseverar naquilo que fazemos melhor. Aprendemos e ensinamos sem medo de titubear. Mais vale que demonstremos a nossa insatisfação que nos silenciemos numa covardia injustificada. Não queremos conflitos, guerras, mentiras e desgovernos. Aceitemos naturalmente a próxima etapa evolutiva da humanidade.

Sementes de bondade e compaixão germinam em pontos diversos do orbe. A geração que se avizinha traz a missão de resgatar este planeta da mesquinharia moral. Some-se à luta. Não nos detenhamos nas diferenças e nos desajustes.

Potencializemos o objetivo comum de amar e prosperar. Façamos o melhor pelo bem-estar de todas as espécies deste planeta.

Vestal da procriação humana ( Bruno Peron Loureiro )

Crônicas & Opiniões | Fonte: Bruno Peron Loureiro ( analista relações internacionais ) :: 11/04/2010

 Bruno Peron Loureiro - analista relações internacionais Procriem os seres humanos que transferem dignidade às gerações vindouras. Expurguem-se aqueles que nada oferecem de exemplar senão a inépcia de uma existência de egoísmo, orgulho e vaidade. A Terra prescinde deste gênero.

Exaure o alento dos desmandos, das guerras e das outras injustiças que têm caracterizado a nossa espécie em sua condição carnal e passional. Queremos algo mais que discursos fundamentados na barbárie e na mentira.

Israel é um dos países cujos governantes se esquivam do dever da renovação. Ao longo do período que se convencionou como "Semana Santa", Israel desferiu seis ataques aéreos noturnos com caças F16 à faixa de Gaza e reiterou o desinteresse de promover a paz no Oriente Médio.

Ligeiramente distante de seu objetivo como regulador mundial, a Organização das Nações Unidas (ONU) deve US$70 milhões de salários atrasados aos uruguaios que participaram de "missões de paz". A justificativa é de que Pangérica e Japão não têm cumprido com sua contribuição financeira na organização.

Dos pangericanos não se espera muito: gastam anualmente quase um trilhão de dólares em armamentos e forças armadas, mas pouco sobra - segundo se deduz de cálculos e discursos - para a paz mundial devido ao impacto da crise econômica.

A paz limita-se a tema filosófico de pensadores que ignoram a realidade ou idealizam muito acima da capacidade destrutiva do animal humano que atrapalha a procriação pacífica das abelhas, as formigas, os pássaros e as árvores.

O suor tem rompido barreiras, entretanto. A aprovação da reforma do sistema de saúde na Pangérica aumenta a cobertura de um sistema essencialmente privado e estabelece medidas que controlam o aumento do custo para doentes que não satisfazem a lógica do lucro. Jovens saudáveis sempre tiveram facilidades para aquisição de planos de saúde.

Mal parida é a fórmula do sistema de saúde pangericano. As mudanças recentes demonstram o heroísmo de Obama (nalgumas ações) e o caráter público que a saúde contém ao contrário da conjuração de capitaleiros gananciosos.

A história está repleta de assassinos impunes e riquezas patifes. Estadistas avessos à elevação humana transgridem a soberania de outras nações, e perfuram campos petrolíferos de onde jorra sangue de milhares de inocentes.

Indefesos e maniatados estão os habitantes do Chaco no norte argentino, lavradores migrantes em cultivos agrícolas no Brasil (onde a escravidão por dívidas ainda é comum), indígenas que tentam preservar seus costumes ao longo de toda América Latina em conflito com a espada da pretensa civilização moderna ocidental.

Urge que vejamos os fatos destituídos de qualquer passividade construída em torno da notícia.

Os governos de Bolívia, Cuba, Equador e Venezuela desenvolvem programas de combate ao analfabetismo e de inclusão social que se reconhecem internacionalmente enquanto, no Brasil, adestram-se bestas em torno dos programas fúteis e pasteurizados da Rede Globo e doutrinam-se seres inanimados pelos templos endinheirados de seitas diversas.

Tudo se deve à carência do ser humano na busca de respostas às perguntas mais básicas: o que sou? de onde vim? aonde vou?

Se não tivermos a resposta de questões basilares, nada justifica as "guerras santas", o predomínio do capitalismo sobre o socialismo, nem o modelo de democracia que se vende pelo país cuja política exterior tem-se pautado no massacre dos despossuídos.

Abramos os olhos do espírito, que enxergam além da vedação material e ideológica.

Descobriremos que os contos não representam fielmente os acontecimentos a despeito das tentativas dos pujantes de acobertar o que a humanidade merece saber.

A procriação humana começa a trazer seres dignos para lutar por um mundo melhor.

Se você se considera merecedor de um novo mundo, o que faz para promovê-lo?.

Mundo fraternal ( Bruno Peron Loureiro )

Crônicas & Opiniões | Fonte: Bruno Peron Loureiro ( analista relações internacionais ) :: 04/04/2010

 Bruno Peron Loureiro - analista relações internacionais O desenvolvimento associa-se, antes de qualquer conjetura, ao grau de evolução espiritual da espécie humana. Quando achamos que merecemos um lugar no céu, o inferno nos convoca.

Parte dos seres humanos padece de fome e desnutrição na superfície, enquanto os vermes negam-se a comer a carne dos seres egoístas e impiedosos que jazem no subsolo.

Nunca é demais lamentar que muitos consintam com o capitalismo como se este sistema fosse a mais natural das graças divinas juntamente com a insídia do mercado.

A criança teima pelo picolé de uma marca; o jovem escolhe a profissão que o mercado sugere; muitos adultos não medem os meios para ganhar a vida; o idoso batalha para garantir a melhor aposentadoria; e o defunto lamenta a mediocridade de sua existência derradeira.

Pobre daqueles que ignoram o óbvio a fim de sustentar a opulência, de um lado, ou fomentar a miséria, de outro. A cobrança virá em dobro. A humanidade recobra fins trágicos.

Representantes de treze países da América Latina e do Caribe propuseram em Quito, capital do Equador, a união de organismos de integração na luta conjunta da região para erradicar a fome e a desnutrição até 2025. Desacostumemo-nos com os dogmas da subserviência.

Apesar de que os mandatários da política tupinica não se fazem sem a venda da alma ao diabo, o que justifica a continuidade das macro-políticas econômicas, o presidente Lula tem seus méritos. Um deles é a persistência do programa Fome Zero, que o aclamou nas eleições de 2002.

É sensato reiterar a tese de que de barriga vazia ninguém quer saber de material escolar. Uma vez vencida esta etapa, discutir-se-á que a educação não se faz sem bons instrutores.

Em 2009, a fome e a desnutrição afetaram 53 milhões de pessoas na América Latina e o Caribe segundo o Ministério de Agricultura e Pecuária do Equador.

Por que alastra o afã injusto de desmerecer os governos progressistas da região, que priorizam a redução da pobreza e o combate às mazelas do capitalismo?

O preço do arrependimento deveria satisfazer a voracidade de atores pujantes na tragicomédia capitalista em decadência. O discurso capitaleiro tem seus dias marcados.

A recomendação para as crianças precavidas é de jamais falar com estranhos. Ao chegar à senilidade e depois de tanta faina, haverá maiores recompensas.

Maldita hora em que um sistema estranho à elevação humana torna-se familiar.

Organismos internacionais de competência renomada, como a Comunidade Andina de Nações (CAN), o Mercado Comum do Sul (MERCOSUL) e a União das Nações Sul-Americanas (UNASUL) bradam o uníssono da misericórdia pelos despossuídos.

Assistimos ao advento da hora de extirpar, ao menos, a fome e a desnutrição dos cômputos da América Latina e o Caribe. Duas chagas que nos retêm na periferia do orbe.

Algo nos sugere que a humanidade tem-se embasbacado nos caminhos da ganância, a corrupção e a possessão descaradas de bens mal divididos e de saberes em conflito.

Os capachos da política e do lucro extraem do povo o que cabe à coletividade e curvam-se diante do destino nefasto que se lhes descortina na escolha entre o céu e o inferno.

A sorte de alguns destoa da desgraça de outros. Neste mundo carnal e desalmado, permanecem os seguidores das paixões mais descabidas. A responsabilidade recai sobre a justiça que funciona e pela qual "não passará um fio de cabelo" sem que o ente maior perceba.

Seja cultivador e merecedor de um mundo fraternal.

Cobre justiça de outros cidadãos.

Discorde do que não lhe parece sensato.

Gastos militares na América do Sul ( Bruno Peron Loureiro )

Crônicas & Opiniões | Fonte: Bruno Peron Loureiro ( analista relações internacionais ) :: 04/04/2010

 Bruno Peron Loureiro - analista relações internacionais A contingência de animosidades, conflitos e guerras ainda destoa dos anseios pela paz numa época em que se discute a hegemonia de poucos países, a agressão irreversível à natureza e as previsões sustentadas do fim do mundo.

O Instituto Internacional de Pesquisa sobre a Paz de Estocolmo (SIPRI, da sigla em inglês) alerta sobre o aumento de fluxo de armamentos ao redor do mundo.

Corrida armamentista é um tema que se tinha por soterrado até pouco tempo atrás, quando os números escancararam o aumento de investimento bélico e de preocupação com as "regiões de tensão", como América do Sul, África Setentrional, Oriente Médio, Ásia Meridional e Sudeste Asiático.

É a paz um projeto utópico? Tema recorrente de uma filosofia imprescindível.

O poder e a ganância ofuscam a intenção de promover a paz mundial.

Países pujantes sustentam o ímpeto injustificado de querer controlar quem pode e quem não pode investir em armas e a quantidade que lhe cabe a cada ente nacional.

A Pangérica exportou 30% dos armamentos mundiais entre 2005 e 2009. É a maior exportadora deste segmento econômico e seu investimento militar é inigualável. Os rendimentos são colossais. Da mesma proporção é a tristeza daqueles que enxergam a paz como um fio trêmulo.

Estados ricos em recursos naturais têm investido em aeronaves de guerra, que se responsabilizaram por 27% do volume de transações internacionais de armamentos entre 2005 e 2009.

Na América do Sul, o gasto militar sofreu aumento de 150% nos últimos cinco anos em comparação com a primeira metade da década. É procedente, no entanto, o blefe de que a América do Sul persegue uma "corrida armamentista"?

Colômbia, Chile e Equador são os países sul-americanos que destinam a maior parte do Produto Interno Bruto (PIB) a gastos militares, apesar de o Brasil ter o orçamento mais expressivo em valores na região.

A Colômbia é ainda o país latino-americano que recebe o maior auxílio militar da Pangérica, o que se deve aos acordos bilaterais para o combate ao narcotráfico.

A briga pelas áreas de influência travava-se no contexto que vigorou até 1989, quando dois gigantes antagônicos disputavam os modelos de capitalismo ou socialismo. Havia um equilíbrio maior entre as potências, que se intimidavam mas não se atacavam.

Nos tempos hodiernos, países em desenvolvimento, como Brasil e Irã, contestam justamente os pujantes sobre os monopólios de armas e programas nucleares.

Escuta-se que o presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad é perigoso, portanto conduziria irresponsavelmente um programa nuclear. E o ex-presidente assassino e criminoso George W. Bush, que invadiu impiedosamente Afeganistão e Iraque, e seu assecla Barack Obama, que mantém tropas nos dois países a despeito das milhares de mortes mensais? São promotores da liberdade?

Por sua vez, os argumentos oficiais tupinicas apelam principalmente à necessidade de atualizar o equipamento militar obsoleto no Brasil, proteger o território vasto e as reservas de petróleo, e lançar-se como potência regional e global.

Quem é tolo para acreditar que a França quer enviar novamente navios nos mares tupinicas para buscar a caixa preta do voo 447 abatido da Air France? Entre uma garimpagem e outra no fundo do mar, hão de encontrar o que realmente lhes interessa.

Estadistas tupinicas oscilam entre a inserção do Brasil como líder regional ou ator global. Para isso, eles têm vendido a pátria e cuspido coliformes fecais.

Segundo o Centro de Estudos Nova Maioria (CENM), que é um instituto argentino de pesquisas, o Brasil tem o 12º maior gasto militar no mundo.

Apesar da informação sobre o Brasil, é mister projetar o setor no contexto sul-americano, cujo espaço geográfico foi considerado uma das "regiões de tensão" pelo SIPRI.

Os conflitos da América do Sul são anódinos quando comparados aos do Oriente Médio.

Exceto pelas querelas entre Colômbia e Venezuela, Equador e Colômbia, Peru e Chile, Bolívia e Paraguai (recordando o impacto da Guerra do Chaco: 1932-35), que não se materializam em embates militares, a região é pacífica.

É preferível que o orçamento vá para a educação (formação prévia de uma categoria sólida de professores) e a saúde (medicina preventiva deveria ser prioridade) em vez de aparelhagem militar, porém o tema da soberania reacende a flâmula deste "mal necessário".

Virá o dia em que os povos das diferentes nações se entendam e se respeitem.

Sejamos cúmplices deste caminho aberto.

Burocracia dos Impostos ( Bruno Peron Loureiro )

Crônicas & Opiniões | Fonte: Bruno Peron Loureiro ( analista relações internacionais ) :: 28/03/2010

 Bruno Peron Loureiro - analista relações internacionais Um estudo recente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) indica que "sistemas tributários complexos" e "alta evasão fiscal" prejudicam o crescimento econômico na América Latina e no Caribe.

Ainda que o objetivo aqui não seja, como virou moda em análises econômicas, focar o crescimento econômico, vale o despertar para a necessidade de uma reforma tributária que atenda ao desenvolvimento de cada um dos países latino-americanos em suas particularidades.

A América Latina desperdiça muito tempo na burocracia dos impostos: cálculo, preparo, cobrança, recebimento. Para cada função microscópica, um funcionário público.

Segundo o BID, o processo de arrecadação de impostos dura aproximadamente 2.600 horas no Brasil, que possui, com folga, a burocracia mais morosa na América Latina. A mesma instituição revela comparativamente que os países latino-americanos levam quase o dobro do tempo neste processo que os de renda elevada.

A reforma tributária é bandeira de setores empresariais, por isso há que matizar o tema para o interesse coletivo, mas ordem de cidadãos que se insatisfazem com a ineficiência da máquina pública. É um tema inadiável até mesmo aos que defendemos as causas mais populares e progressistas.

Não se trata só de arrecadar menos, mas também de garantir o retorno do valor arrecadado.

O estudo do BID assinala que os Estados latino-americanos arrecadam pouco em comparação com os padrões internacionais apesar do diagnóstico de que os impostos são altos e correspondem a aproximadamente 48% da riqueza nesta região.

Os países mais ricos do globo taxam 41% da renda em média e contam com a maior parte do recolhimento dos tributos pela austeridade e probidade de seus sistemas tributários.

Na América Latina, as empresas grandes são, em número, as que menos sonegam, enquanto as pequenas e médias raramente declaram todo seu rendimento para fins de tributação.

Os tributos elevados reduzem a produtividade das empresas no setor formal e desincentivam o investimento que se poderia esperar de um espectro maior da economia.

O ponto axial do debate é que o Estado perde sua capacidade de retorno na forma de serviços públicos à população e ganha o descrédito como agente de obstáculo ao desenvolvimento do país.

Quando o Estado deixa de arrecadar, reduz-se o investimento em políticas para a educação, a moradia, a saúde, a segurança, dentre outros setores sociais.

No Brasil, quem paga os maiores custos é o consumidor final na cadeia econômica, visto que o valor de um produto na loja raramente discrimina os impostos do preço de venda nos cupons fiscais. Engana-se a consciência de quanto pagamos de impostos e, portanto, quanto devemos cobrar em troca.

Não se trata de fazer apologias nem desprezar o atributo do Estado de regular as atividades econômicas num país senão alertar para a ineficiência de aparatos de tributação que determinam o nível de investimentos e produtividade nas economias latino-americanas.

É preferível que os tributos sejam menores e a burocracia mais eficiente na América Latina a que se cobre o injusto para que os empreendedores disputem entre si quem engana melhor o Estado.

O estudo do BID, apesar de financiado por instituições financeiras externas à nossa região, ilumina mentes acomodadas e viciadas. A cautela acompanha naturalmente o risco recorrente de se minimizar a importância do Estado de acordo com as políticas ilusórias de abertura irrestrita da economia. Os últimos anos mostraram que o Estado é indispensável.

A reforma tributária poderá aumentar a produtividade e a renda, melhorar a eficiência no financiamento de programas sociais, e diminuir a informalidade.

A simplificação dos impostos beneficiaria os Estados e os cidadãos.

Pressionemos pelos caminhos mais justos.

Belo Monte para quem ( Bruno Peron Loureiro )

Crônicas & Opiniões | Fonte: Bruno Peron Loureiro ( analista relações internacionais ) :: 22/03/2010

 Bruno Peron Loureiro - analista relações internacionais A construção da usina hidrelétrica de Belo Monte é mais um capítulo do certame entre os pujantes e os despossuídos. O que chama mais a atenção é o apelo oficial à obra em nome do desenvolvimento.

Temos a impressão de que os vencedores da contenda exibirão, como de costume, os detalhes do empreendimento colossal pelas ferramentas digitais do Google, já que o prejuízo da população regional reduz-se a um mero empecilho. Nas imagens via satélite, os pequenos nem aparecem.

Indígenas, agricultores e habitantes de áreas ribeirinhas assistem ao advento da terceira maior usina hidrelétrica do mundo e a segunda do Brasil como seres desarmados e passivos.

A usina hidrelétrica será instalada no rio Xingu, próximo à cidade de Altamira, oeste do estado do Pará. Terá capacidade de geração de 11,2 mil Megawatts (MW) e criará, segundo seus defensores, 18 mil empregos diretos. Não se contam os imigrantes iludidos.

Paquiçamba e Arara da Volta Grande, por sua vez, são as principais comunidades indígenas afetadas pelo futuro ominoso para suas práticas tradicionais. O pouco que resta das culturas aborígines é incinerado por esse modelo de desenvolvimento.

A maior hidrelétrica do mundo é a de Três Gargantas, no rio Yang-Tsé, China, enquanto Itaipu, em Foz do Iguaçu na fronteira com o Paraguai, é a segunda.

A discussão sobre a instalação da usina de Belo Monte já toma pelo menos vinte anos e, a despeito do mérito do tema, atravessou vários carnavais em que mulheres bonitas exibiam a bunda e o peito.

O projeto, cujo custo é estimado em R$30 bilhões e estimulado pelo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), é polêmico. A aprovação incondicional pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA) botou lenha na fogueira.

Um tema que era amargo ficou corrosivo.

Movimentos sociais, análises ténicas de cientistas, alguns organismos sem fins lucrativos e o Ministério Público Federal opuseram-se ao projeto de construção da usina, que está ratificado por grupos pujantes.

A questão que permeia um projeto desta magnitude é de qual é o modelo de desenvolvimento que o Brasil se prontifica a seguir, se é sustentável ou não e quem auferirá benefícios e prejuízos.

O mote da política é ação para maiorias ou minorias. Nunca é para todos.

Alguém sempre ganha; outro, perde.

Belo Monte prevê impactos como: diminuição do volume de água no rio Xingu, dificuldades no transporte fluvial, extinção de espécies de peixes, atração de imigrantes excedentes.

A construção da usina hidrelétrica numa região de vazio populacional confirma o clientelismo de políticos envolvidos no projeto e a vocação tupinica de vender o que a natureza nos presenteia.

A evacuação de recursos naturais terá novo impulso com essa obra faraônica, assim como se reiterará a decadência de nosso padrão de ocupação das áreas verdes.

Os rincões do norte do Brasil obedecem a uma lógica submissa aos mandos de grandes empresários nacionais - mas não nacionalistas - e a especulação de estrangeiros interessados no nosso banco de espécies aberto à exploração mundial.

Belo Monte é o limiar de uma etapa de sondagem que os tomadores de decisão tupinicas - e pretensos representantes do povo - subsidiarão de longe e com os olhos vedados.

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), instituição que atira para todos os lados e acaba abatendo tupinicas, financiará o ganhador do leilão de Belo Monte, que está previsto para abril. O tiro mais recente saiu no empréstimo milionário deste banco à Mercedes-Benz.

Se a preocupação fosse a visão de longo prazo, o BNDES destinaria boa parte de seus recursos aos pequenos e médios empresários nativos deste Brasil onde o come-come é faminto.

Aquífero Guarani, minério de ferro, pré-sal, terras agricultáveis e potencial hídrico para a construção de barragens são algumas das dádivas com que contamos dentro do modelo de desenvolvimento vigente no Brasil.

Resta ilustrar a quem este modelo atende.

Ladainhas habituais ( Bruno Peron Loureiro )

Crônicas & Opiniões | Fonte: Bruno Peron Loureiro ( analista relações internacionais ) :: 17/03/2010

 Bruno Peron Loureiro - analista relações internacionais Estas últimas semanas trouxeram fatos ébrios e nefastos para a consolidação do desejo - ainda de poucos - de uma fraternidade desinteressada, responsável e universal.

Não foi necessário sintonizar o televisor nos programas que exibem a violência barata no Brasil.

Desde o ponto de vista do percurso humanitário rumo a uma nova escala evolutiva, desastres naturais e desmandos do homem corroboram a tese de que a natureza não suportará por muito tempo.

O exercício singelo de observar a grande geradora vital nos ensina que a derrubada da árvore nos tira a sombra e a liberação de gases contaminantes nos entorpece a respiração.

Como se não bastasse a desgraça que incidiu sobre o Haiti na forma de terremoto, o Chile e a Turquia foram assolados por tremores que deixaram nódoas duradouras no concreto e na vida de milhares de pessoas. Até o nordeste tupinica sentiu tremores.

Ainda que o Chile disponha de uma organização mais eficiente que a média latino-americana, desempenho econômico satisfatório e preparo contra abalos telúricos, o estrago foi considerável.

Mãos amigas logo se estenderam ao povo chileno.

Enquanto isso, a secretária de Estado Hillary Clinton trouxe da Pangérica as condolências e - como não poderia faltar - a proposta de estreitar vínculos comerciais e culturais com a sempre disposta e escancarada América Latina. A região da alcunha francesa de "Amérique Latine".

Durante a turnê, Hillary sugeriu que o subsídio milionário de seu governo aos produtores de algodão seria revisto a fim de evitar a justa retaliação anunciada pelo chanceler do Brasil.

Abra-se o orbe ao livre comércio, mas desde que a Pangérica obtenha vantagens.

As perdas no setor agrícola tupinica foram monstruosas, por isso a Organização Mundial de Comércio (OMC) autorizou a contrapartida de sobretaxação em produtos pangericanos.

No elenco das ladainhas habituais, não se deixa de mencionar o desespero das autoridades da Organização de Estados Americanos (OEA) frente à criação da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos na reunião de mandatários da América Latina no México.

Os mal compreendidos governos progressistas manifestam o anseio coletivo de um contexto latino-americano onde a única voz não seja a dos pujantes.

Hillary propôs a reconciliação diplomática dos países recalcitrantes da América Latina com o golpista Porfirio Lobo, que assumiu a presidência em Honduras, argumentando a favor da retomada da "democracia". Não importa, para ela, o caminho quando "os fins justificam os meios".

Tão patética esta estadista quanto os que enquadraram a eleição do presidente pangericano Barack Obama como se fosse o prometido para a salvação da América Latina.

Obama está mais preocupado com o interesse dos "Americans", o que é natural frente ao desafio, entre outros, da reforma no setor de saúde tomado pelos progenitores do lucro.

A cultura de retribuição de favor ou dano, que é enraizada no Brasil, converge com a da falta de instrução de um coletivo que come as migalhas da informação.

Na República Dominicana e como não poderia haver desvio do padrão, mulheres foram presas com droga escondida na vagina enquanto visitavam presidiários. Ação criminosa descarada ou necessidade de tratar os drogados como problema de saúde e não de delinquência?

Enquanto o Brasil vive um momento de ineficiência administrativa do Estado e violência exacerbada, as notícias estrangeiras situam o país como uma potência econômica e um lugar prometedor de investimentos.

A economia é uma redoma fria e isolada.

O conúbio dos capitaleiros metidos a capitalistas internacionalizados, que já se reúnem entre seus sócios falando mais palavras em inglês que português e espanhol, com o conformismo dos cidadãos nacionalizados enseja as condições básicas para o constrangimento da América Latina.

Já não é mais questão de saber se há propostas viáveis para cada um de seus países senão questionar até onde poderão chegar sem esbarrar na oposição apaixonada e destrutiva.

Chega de ladainhas habituais. Precisamos de um discurso conciso e que nos desperte o ânimo. Brotam pessoas de bem na América Latina.

A engrenagem pútrida ( Bruno Peron Loureiro )

Crônicas & Opiniões | Fonte: Bruno Peron Loureiro ( analista relações internacionais ) :: 08/03/2010

 Bruno Peron Loureiro - analista relações internacionais Ainda tenho minhas dúvidas sobre como o Brasil, que tem muita gente que não presta, poderá ir para frente. Em cada depósito de esperança, surgem novas dívidas de desgraça.

Este país é tomado por aproveitadores, corruptos, assassinos e ladrões desde o cerne de movimentos populares às cúpulas de decisão.

Os grandes debates políticos concentram-se no impasse entre Estado e mercado, mas deveriam primeiramente identificar onde está o "bem" e o "mal".

Os fragmentos do mapa do Brasil são assenhoreados em vez de compartilhados pelos tupinicas. Há raras exceções dos que se marginalizam da engrenagem pútrida por discordar de seu funcionamento.

O termo "engrenagem" substitui o eufemismo "sistema" porque este já faz parte do vocabulário da condescendência e da resignação. Receitas de um país cuja culinária é apropriada pelos indivíduos, grupos e países pujantes.

É fácil mudar um sofá de lugar, mas o mesmo não se pode dizer da cultura. Muito menos da cultura clientelista e vassala que se propaga na velocidade de um vírus H1N1 neste nosso "país do futuro".

A venalidade dos políticos em corrida eleitoral anula qualquer pretensão de desenvolvimento no Brasil. O voto de um eleitor ponderado é imediatamente anulado pelo de outro que recebeu uma cesta básica para sustentar a horda de filhos que dispõem de um triste destino pré-natal: a pobreza espiritual e material. A produção em série de descendentes é interessante para os mordedores do mapa tupinica.

É um problema duplo: de ordem educativa e econômico-social.

Dando continuidade ao tema da decadência tupinica, entorpece o fato de que viver atrás das grades tem sido opção em vez de flagelo.

Somado à constatação de que "autoridades" têm direito a cela com televisão por assinatura e ar-condicionado, quando não burlam a justiça por sua posição de destaque nos negócios e na sociedade, o criminoso que recolhe a taxa mensal como segurado da Previdência Social tem direito ao auxílio-reclusão, que é uma bolsa de R$798,30 dirigida à família do presidiário que tiver filhos.

O valor é maior que o salário mínimo de R$510. A condição de presidiário lhe dá esse direito renovável a cada três meses pelo tempo em que estiver recluído. O criminoso sustenta a família sem laborar, enquanto o trabalhador livre muitas vezes ganha menos por uma atividade pesadíssima e sofre as piores explorações, inclusive do próprio Estado.

O Brasil está nadando em merda.

Presidiários deveriam trabalhar para a sociedade, por exemplo na colheita ou construção civil, em retribuição ao dano causado e na emulação de sistemas carcerários que funcionam. Não há desgraça pior que o nosso complexo presidiário.

Não tarda muito para que apareça a expressão de que "falta vontade política" para mudar uma situação cujo desajuste é evidente e impostergável.

Nalgum momento de meu ativismo, expressei que podemos perder tudo menos a nossa capacidade de sonhar. Chegou o momento em que temos que elevar a sinalização de protesto antes de que o lugar mais digno de viver seja a placenta.

Precisamos impulsionar a educação, reinventar a política e dizer basta aos excessos cometidos contra a cidadania. O mapa tupinica está cheio de mordidas e, por isso, apresenta-se desgastado.

Chegará o momento das pessoas de bem, que não farão oposição em prol de interesses de classe senão de um convívio coletivo e responsável.

A esperança reside naqueles que preservam os sonhos.

O rugido da quarta frota ( Bruno Peron Loureiro )

Crônicas & Opiniões | Fonte: Bruno Peron Loureiro ( analista relações internacionais ) :: 01/03/2010

 Bruno Peron Loureiro - analista relações internacionais Nenhum país, por mais fechado que seja, é capaz dentro da sensatez de ignorar a inserção internacional e os processos globais de articulação dos povos e das economias. A China e o Japão, respeitando os matizes, exemplificam sistemas que se abriram ao mundo e tornaram-se países poderosos. Os excessos de inspiração telúrica, porém, induzem à deformação da harmonia internacional em proveito de poucos países, que não escondem a ganância e a volúpia de tomar para si.

A Pangérica dispõe de mais de oitocentas bases militares em todo o mundo e demonstra que é capaz de mentir e invadir para estender seu domínio. O caso mais recente é a incriminação do Irã pela mera intenção de se defender. Pangérica, França e Israel, todos portadores de armas nucleares, têm criado a imagem de que o Irã vai enriquecer urânio a tantos por cento e seguir objetivos bélicos.

A manipulação toma tais proporções que, em parceria com a ignorância, passou-se a medir o nível de ameaça do Irã em função da percentagem de enriquecimento de urânio. Vi numa reportagem que o alerta aumentou porque o Irã decidiu enriquecer urânio a 80% em vez de 20%.

Deixando a questão iraniana para outra ocasião, uma das polêmicas mais recentes parte da reativação da Quarta Frota da Marinha de Guerra da Pangérica em julho de 2008. É um complexo de armamentos avançados e navios capazes de servir de base para o lançamento de armas nucleares que foi criado em 1943 no auge da Segunda Guerra e operou nas águas do Atlântico ao longo de América Latina e Caribe até 1950. A Pangérica come do fruto proibido, mas continua no paraíso.

Enquanto o militarismo é o recurso da Pangérica para exercer domínio mundial, os cafetões das grandes agências de notícias condenam a tentativa de o Irã se defender na mesma medida em que prepararam o terreno de enforcamento de Saddam Hussein, ex-presidente iraquiano. O exercício de reconhecer que não existe objetividade na imprensa é singelo.

A Pangérica, sedenta desde Washington e com sede mundial, divide o mundo em grandes regiões a fim de controlá-lo e vigiá-lo.

Para quem duvidava da existência de um governo global, até polícia telúrica já se criou nas fiscalizações de armas de destruição em massa no Iraque e Irã, invasão do Afeganistão com o pretexto de combate ao terrorismo, apoio à deposição do governo legítimo de Manuel Zelaya em Honduras, e envio de tropas ao Haiti, que precisa de auxílio médico. Os métodos de abordagem são variados: ajuda humanitária, treinamento de oficiais nativos e sustentação a operações de contra-insurgência.

O governo colombiano recebe apoio do estadunidense no combate ao narcotráfico.

A Quarta Frota reivindica que saia urgentemente um vencedor do embate entre o “bolivarianismo” e o “panamericanismo”. Ideais voltados à nossa natureza se chocam com a labareda do vizinho que trocou o porrete pelo poder da palavra e, quando necessário, das armas.

Governos progressistas e de orientação mais autônoma na América Latina resistem à Pangérica. A região abaixo do rio Grande volta a compor a mesa de debates da política externa do Norte devido à ascensão mais independente.

A reativação da Quarta Frota, que já esteve em exercício num momento de tensão mundial e resistência ao comunismo, comprova que a Pangérica está disposta a sustentar outra briga e movimentar a sua indústria bélica. O preço das armas é maior que o de vidas para as sentinelas da guerra. Vozes afirmam que a descoberta de petróleo na camada pré-sal do Brasil estimulam o apetite da Quarta Frota.

Ainda que se concentre em Brasil, Cuba, Venezuela, Equador e Bolívia, o rechaço aos ditames de Washington é cada vez maior. Projetos alternativos de desenvolvimento desde foros da Alternativa Bolivariana para as Américas (ALBA), Unição das Nações Sul-Americanas (UNASUL) e Mercado Comum do Sul (MERCOSUL) desviam a América Latina do campo de influência de potências mundiais a ponto de que a estratégia tem que ser relançada ou repensada pelos “exterminadores do futuro”.

A criação da Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos é mais um passo.

É lamentável que a reativação da Quarta Frota não tenha provocado qualquer reação fora da academia e alguns grupos institucionais e de opinião no Brasil. O avanço da democracia venezuelana e a estratégia de dissuasão do governo iraniano, em contrapartida, são temas covardemente tergiversados pelas agências gigolôs de notícias a serviço do mal maior.

Já se ouve o rugido da Quarta Frota.

As Malvinas e a intromissão descarada ( Bruno Peron Loureiro )

Crônicas & Opiniões | Fonte: Bruno Peron Loureiro ( analista relações internacionais ) :: 01/03/2010

 Bruno Peron Loureiro - analista relações internacionais O conflito das Malvinas estimula a retomada do adágio “a união faz a força” pela irmandade da América Latina.

Em se tratando do desnível de capacidade bélica entre Argentina e Inglaterra, uma cotovelada nos vizinhos latino-americanos convoca-os a lançar o tema como de importância regional em foros vindouros.

A Inglaterra enviou a plataforma marítima “Ocean Guardian” na intenção de explorar gás e petróleo a 160 km ao norte das Malvinas, cujo arquipélago de três mil habitantes é disputado desde o século XIX pelos dois países, mas ficou sob domínio inglês desde 1833.

Os pujantes há muito controlam territórios latino-americanos e ilhas adjacentes. A Inglaterra controla as Malvinas assim como a Pangérica faz em Porto Rico e a França na Guiana Francesa. Discute-se a soberania da Argentina e o espaço de defesa da América Latina.

A estratégia do governo argentino tem sido a de dificultar a ação das empresas inglesas, que se aproximam em consequência da alta do preço de petróleo. A presidente argentina Cristina Fernández passou a exigir autorização oficial de todas as embarcações estrangeiras para que naveguem em águas do país sul-americano.

O esforço da Argentina de frear o apetite inglês é histórico. A guerra de 1982 rendeu a baixa de 649 argentinos e 255 britânicos e a derrota dos anseios de recuperação do território pelos argentinos. O governo do ex-presidente Néstor Kirchner, para citar uma ação mais atual, fez campanha pela retomada das Malvinas.

É legítima a defesa dos recursos naturais na área marítima por parte da Argentina, ao mesmo tempo em que surgem boatos inoportunos de que a presidente Cristina Fernández tentou desviar a atenção de problemas internos, como o aumento da inflação e o uso das reservas do Banco Central.

Qualquer crítica nesta direção desconsidera que os países latino-americanos estão sempre atolados nalgum impasse ou problema e que, a despeito deste diagnóstico, devem travar certames a favor da soberania e do resgate da dignidade de seus povos humilhados e avassalados.

A Argentina e a Inglaterra estão dispostas a dialogar sobre as Malvinas, apesar de a segunda dar por encerrado o debate sobre a legitimidade de sua posse sobre as ilhas, cuja renda provém boa parte da pesca.

Um conflito armado é pouco provável pelo desnível das forças envolvidas.

O litígio não impede que a Argentina alimente o seu desejo de restituição do território por meio da condução do tema a um foro latino-americano de debates envolvendo representantes políticos de tomada de decisões importantes, como o Grupo do Rio ou o Conselho Sul-Americano de Defesa, que ainda não se consolidou.

A montagem de uma estrutura própria de discussões e ações sobre temas latino-americanos por governos progressistas na região começa a surtir efeito e a chacoalhar a base que, por séculos, sustentou a ganância dos países pujantes.

A Argentina não vê opção melhor que a união latino-americana para expulsar os corsários destas latitudes de onde muito sangue jorrou sob os mandos de forasteiros. As Malvinas são uma mostra da permanência de práticas colonialistas e imperialistas.

Cercados por navios de guerra e bases militares da Pangérica, a saída do mais fraco é resistir. Em mais uma prática desestabilizadora, a Pangérica convida o Uruguai a firmar tratados de livre comércio enquanto este país é fundamental para a continuidade do Mercado Comum do Sul (MERCOSUL).

Embora a retórica seja a da paz, cujo prêmio Nobel foi estupidamente concedido ao estadista dúbio e infrutífero Barack Obama em função de mamulengo, a Pangérica militariza nossa região e a Inglaterra envia uma plataforma de prospecção de gás e petróleo como se fossem os donos do pedaço.

Basta de intromissão descarada.

As Malvinas pertencem à Argentina.

O trabalho na terra do Carnaval ( Bruno Peron Loureiro )

Crônicas & Opiniões | Fonte: Bruno Peron Loureiro ( analista relações internacionais ) :: 22/02/2010

 Bruno Peron Loureiro - analista relações internacionais Os conceitos de trabalho e emprego confundem-se no Brasil. O primeiro tem para todos desde que haja vontade de fazer e dedicação para continuar, enquanto o segundo depende das decisões governamentais, do modelo de desenvolvimento do país e das instabilidades das economias internacionalizadas.

Já vi pessoas com anúncios escritos a mão em cartazes pendurados no pescoço oferecendo serviços na rua num desejo explícito de trabalhar, enquanto outras esperaram meses ou anos em vão o emprego bater na porta do lar.

Fala-se de crise financeira mundial, oscilação nas bolsas de valores, queda de investimentos, falta de poupança interna, políticas que beneficiam os pujantes, perda de empregos. Em terra tupinica, já ouvimos de tudo. Menos que chegamos ao padrão desejável de funcionamento da sociedade e de empregabilidade.

O cenário politiqueiro que vigora no país não é auspicioso para o emprego.

O setor de telemarketing é o que mais emprega no Brasil. Só para fazer um diagnóstico, a previsão é de que o número de trabalhadores neste setor ultrapasse um milhão em 2010.

Comemora-se que a taxa de desemprego reduziu-se ao longo das duas gestões do presidente Lula de aproximadamente 12% para 8%. Ainda falta, porém, reconhecer a função catalisadora e não provedora do Estado.

Ao mesmo tempo em que grandes esforços convertem-se em avanços módicos no número e na qualidade dos empregos, o que não é de se estranhar, discute-se a proposta de emenda à Constituição (PEC) 231, de 1995, que prevê a redução da jornada semanal de trabalho de 44 para 40 horas. Em 1998, já houve a mudança de 48 para 44 horas.

O debate suscitou, entre outras, as dúvidas seguintes: a redução da jornada semanal de trabalho efetivamente gera vagas de emprego? Ou, em vez disso, o crescimento econômico seria o principal responsável pelo aumento do número de profissionais empregados?

A crença excludente numa ou outra opção é traiçoeira.

Cada grupo tenta puxar do seu lado: sindicatos, associações comerciais, federações de indústria, etc.

A mania de projeção de crescimento econômico para os próximos anos traz poucos benefícios à massa carente do mais básico das necessidades. Sabemos que a maior parte dos proveitos do crescimento econômico é açambarcado por um grupo minoritário, que não esconde a indisposição de repartir a renda.

Num país onde quase tudo se nos tira, por mal quando não por bem, ainda nos resta sonhar.

Logo a tradição tupinica de tomar para si o que é de todos nos impede de projetar coletivamente. O Brasil tem sido moldado erroneamente de acordo com interesses privados e egoístas e, a contragosto dos bem intencionados, a esperança seca e endurece.

Faltam políticas públicas para as pequenas empresas, que geraram mais da metade dos empregos nos últimos anos. Ainda que se desprendam esforços hercúleos, uma minoria delas supera a burocracia, as malandragens do setor privado, o poderio dos monopólios.

Estaremos cada vez mais vulneráveis a condições degradantes de trabalho para que as cifras de emprego sustentem as macro-políticas obsoletas que se prendem ao crescimento econômico e às demandas do mercado. A pressão vem de fora para dentro.

Algo tivemos que aprender dos pangericanos, agentes da prostituição latino-americana. Fazem-nos crer que o que deu certo lá não pode dar errado por aqui. Oferecem-nos tratados de livre comércio, a liberdade dos que podem e a democracia beligerante.

Na semana que antecedeu o carnaval tupinica, vi na televisão o depoimento de uma pessoa que se orgulhava de trabalhar dia e noite na confecção de fantasias de uma escola de samba. Suspirou e comentou que estava sem tempo para outras atividades.

Trabalho tem. Bobos os nossos governantes, que discutem emprego.

Dualidades na análise política ( Bruno Peron Loureiro )

Crônicas & Opiniões | Fonte: Bruno Peron Loureiro ( analista relações internacionais ) :: 15/02/2010

 Bruno Peron Loureiro - analista relações internacionais A multiplicidade de idéias é fértil no solo democrático. Emerge, porém, o risco de transformação de posturas múltiplas em dualidades na análise de conjuntura política sul-americana.

Mal adentramos o ano de eleições no Brasil e parece que as únicas cartas da mesa foram lançadas pelo Partido dos Trabalhadores (PT) e o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB). É como se a definição inibisse os demais partidos a ponto de que não lhes resta mais que apoiar um ou outro dos grandes jogadores. Já se fala de alianças para um possível segundo turno e outras especulações.

Ainda, as categorias de “esquerda” e “direita” são recicladas de acordo com o que cada um pensa delas sem qualquer base histórica do que compõe uma e outra.

A crítica aos grandes meios de comunicação passou a fazer parte de uma ala mais “esquerdista”, enquanto a outra mais “direitista” se conforma com atribuir a culpa de qualquer desgraça nacional ao presidente Lula. O mandatário assumiu a presidência em janeiro de 2003 como se fosse o responsável por toda pobreza espiritual e material de que o país é testemunha.

A polêmica em torno do 3º Programa Nacional de Direitos Humanos tirou a tranquilidade de alguns grupos em vez de oferecer o gel desestressante. Mensagem: a verdade tem limites.

O futuro hóspede do Palácio do Planalto que se prepare para a mesma onda de críticas que crucifica uma única pessoa. Falta a esperança de diálogo no Brasil.

O panorama não é mais animador quando se trata de avaliar os nossos vizinhos sul-americanos e comparar os dados de desenvolvimento. Passou-se a falar de medidas de democracia. As dualidades e o desconhecimento das complexidades de cada país induzem a interpretações superficiais e tendenciosas.

A última refere-se ao esforço vão de cultivar dois eixos de países na América do Sul: um de políticas mais conservadoras e alinhadas aos Estados Unidos (Colômbia, Peru e Chile) e outro de orientação mais popular e progressista (Venezuela, Equador e Bolívia).

Sebastián Piñera ganhou as eleições no Chile e depôs a chance de continuidade das políticas de seus antecessores imediatos, enquanto o líder indígena Evo Morales conquistou o segundo turno de governo com a promessa de refundar a Bolívia. Vizinhos que bebem de mananciais diferentes.

E o Brasil em qual eixo se situa?

Na pretensão de líder regional até que as vestes caiam e apareça o esqueleto putrefato. Na liderança de missões de paz das Nações Unidas até que países mais poderosos finquem a bandeira onde não são chamados sem mais nem menos. Olhemos o Haiti. Nos empréstimos ao Fundo Monetário Internacional até que a casa dos novos credores também seja erodida ou inundada pelas lágrimas da natureza, que escorrem incessantemente por Angra dos Reis, São Luiz do Paraitinga, São Paulo, etc.

Alguns nos fazem crer que tudo que se avizinha do Brasil é farinha do mesmo saco.

Não é de se estranhar que a frente tupinica olha para o mar, enquanto se dá a costa para o continente.

É preciso um esforço adicional para entender o dinamismo das propostas antagônicas que, ao contrário de devolver-nos ao trilho, ofusca-nos a visão. Já nos acostumamos com projetos tão discrepantes. O estado de São Paulo anda com dois modelos: o que arrecada muito, mas exige pagar por tudo que o Estado deveria prover segundo o modelo de arrecadação, como na educação, saúde e segurança.

Não é à toa que uma parcela considerável dos recém-formados no Brasil sonha com o funcionalismo público. Se mamaram em nós, mamemos neles. Esta é a opção tupinica para o tupinica, que insiste em se espelhar nos protótipos do Big Brother Brasil e – por que não? – do nosso Tio Sam.

As mandíbulas do Estado não dão trégua.

Nem a esparrela do livre mercado reconforta os pequenos empreendedores diante da hegemonia industrial da China, o predomínio de grandes marcas e a disputa ideológica que fez os Estados Unidos transferirem vinte mil soldados bem ao lado de Cuba. Não é de médicos que o Haiti precisa?

Desperdiçamos o tempo escasso do ócio com produtos culturais estadunidenses. Pagamos para que eles sejam nossos senhores de engenho na divisão internacional do trabalho. O mundo ainda precisa de açúcar e seus derivados. Como nos esqueceríamos do etanol?

Venho alertando para a redução da análise política às dualidades: Oriente e Ocidente, terroristas e democráticos, “americanos” e “latinos”. A aventura é perigosa. O mundo é muito mais do que nos contam os Ocidentais, democráticos e “Americans”.

Há também o risco de tudo parecer natural. A propósito, quase ninguém mais fala do sórdido golpe militar em Honduras que derrubou o presidente legítimo Manuel Zelaya.

Enquanto isso comemos o pão que o diabo amassou nas terras da colheita.

Machu Picchu e as letras ( Bruno Peron Loureiro )

Crônicas & Opiniões | Fonte: Bruno Peron Loureiro ( analista relações internacionais ) :: 08/02/2010

 Bruno Peron Loureiro - analista relações internacionais Ecos dos países vizinhos do Brasil chegam historicamente deturpados. A prerrogativa é do vencedor de conflitos ideológicos e guerras que conta a história do seu ponto de vista ou dos poderosos que oprimem os feitos dos mais fracos. Por isso, pouco se comenta sobre os esforços de combate à pobreza na Venezuela, o sistema de saúde pública exemplar em Cuba, o modelo de Estado plurinacional na Bolívia ou o passado glorioso do Paraguai como potência sul-americana.

Ainda bem que dispomos das ferramentas da internet.

Infelizmente o ego tupinica de ter sido enquadrado por economistas estrangeiros na categoria dos BRICs (Brasil, Rússia, Índia e China) ou de ter o presidente “pop star” que conquistou a vinda da Copa e da Olimpíada turva a nossa esperança de entender o mundo hispano-americano por mais que Lula reforce a integração entre os povos da região como poucos outros governantes fizeram neste país.

Num desses fenômenos de filtração mediática, falou-se do número de brasileiros que estiveram envolvidos nas inundações e deslizamentos de terra no Peru. A culpa ultimamente tem sido da natureza. Para que conste: houve um desastre natural que isolou peruanos e estrangeiros na região do rio Urubamba, Machu Picchu e Aguas Calientes, que é a porta de entrada ao sítio arqueológico.

Na imprensa da Argentina, o foco foram os argentinos que estiveram na região. Na Espanha, foram os espanhóis. As cifras alcançam maior exatidão quando se referem aos estrangeiros, portanto quase não se falou dos milhares de nativos que sofreram prejuízos com as chuvas.

Houve perdas em cultivos, sistemas de irrigação, pontes, moradias, rodovias e trilhos. Cenários de desolação tomaram conta das comunidades locais, mas este não foi o foco.

Os deslizamentos de terra e o transbordamento do rio Vilcanota inviabilizaram o acesso por trem a Machu Picchu, que é uma das Sete Maravilhas do mundo. Trata-se de uma estrutura da extinta civilização inca nos Andes que foi construída no século XV, é um dos principais destinos turísticos no Peru e o acesso já era limitado. Os incas tiveram o centro em Cusco, apesar de seu império ter se estendido desde o que hoje é Colômbia ao Chile. O turismo é fonte de renda importante para o Peru.

Nunca tarda para que algum país da América Latina hospede desastres humanos e naturais. Como se não bastasse o desmanche da nação haitiana, que virou palco de experimentos internacionais, o Peru suporta o açoite das chuvas e a sofreguidão de parcela da ação humanitária.

Helicópteros fizeram o resgate de centenas de pessoas que se isolaram no destino turístico, porém houve críticas de que os nativos estiveram em segundo plano como se a chuva não os houvesse afetado, os preços aumentaram para os turistas devido à falta de água, alimento e acomodação, além de que alguns turistas endinheirados pagaram aos serviços de resgate para que tivessem prioridade.

Num país tão castigado pelos conflitos étnicos e pelo surrupiamento dos recursos humanos e naturais promovido pelo neoliberalismo, como no governo de Alberto Fujimori e a assinatura de tratados comerciais bilaterais com Pangérica(1) através do presidente Alan García, os rendimentos turísticos fazem a vida de muitos peruanos e o setor, portanto, não pode ficar desamparado.

As imagens que viajam pelo mundo, contudo, nem sempre expõem a solidariedade de seu povo e a beleza desse país andino. O relato de um visitante estrangeiro dizia que os nativos davam muito do pouco que tinham para acolher os afetados pelas intempéries. Princípio da caridade. Noutros episódios, é comum que se dê pouco do muito que se tem.

Mal se comentou sobre o conteúdo diplomático implícito nas ações governamentais de resgate. A retirada de estrangeiros dignifica a imagem externa do Peru e sua credibilidade mundial como destino turístico muito mais do que investir no bem-estar dos nativos. Triste realidade.

Enquanto isso por aqui, fala-se de “risco Brasil”, “marca Brasil”, entre outras invenções do universo das imagens que nos acreditam para investidores internacionais.

Dependendo do assunto que abordo, rememoro os dizeres de uma amiga escritora experiente no campo das letras de que já passou seu tempo de escrever artigos de fundo, reflexivos e sérios. Não que ela haja perdido a crença e a esperança senão a paciência de opinar sobre estes assuntos, muitos dos quais recorrentes. Passou a dedicar-se a crônicas do cotidiano, poesias e outras aventuras da arte.

Preferiria abordar Machu Picchu se já estivesse nesse estágio de desenvolvimento literário. Quem sabe um dia. É o mínimo que merece esta preciosidade arqueológica.

(1) De agora em diante, “Pangérica” passa a ser a designação depreciativa que atribuo aos que usam pretensiosamente a expressão “América” para se referir somente aos Estados Unidos num exercício de mescla com “Pangéia” em relação à teoria de deriva continental que sustenta que o mundo era um único continente 200 milhões de anos atrás. Os Estados Unidos têm pretensão de domínio mundial, promovem invasões e golpes militares em outros países soberanos para sustentar seus interesses, e vendem um modelo de desenvolvimento impiedoso e ultrapassado.

A reforma agrária ( Bruno Peron Loureiro )

Crônicas & Opiniões | Fonte: Bruno Peron Loureiro ( analista relações internacionais ) :: 01/02/2010

 Bruno Peron Loureiro - analista relações internacionais Reforma agrária é uma dessas questões que se reservam aos super-heróis das políticas públicas.

Ainda que dentro do desejável, possível e necessário para uma sociedade mais justa, as propostas de divisão de terras no Brasil incidem em interesses conflitantes: de um lado, os insatisfeitos com o pouco de que dispõem; de outro, os cães que rosnam com o osso na boca.

A concentração de propriedade é abusiva neste país, portanto é necessário implantar um novo modelo de apropriação agrícola e resgatar os erros do passado.

É verdade que não basta ter acesso à terra. Uma dificuldade que surge posteriormente à aquisição de propriedade rural é a de falta de treinamento dos novos proprietários e infra-estrutura para aproveitamento agrícola, como capital, irrigação, semente e vias de transporte. Toma-se em conta que a maior parte do terreno no país não é usada em cultivo ou outra atividade de fins econômicos.

Desde esta linha argumentativa, muitos sustentam que o problema seria então o de excesso de terras ociosas e a falta de investimento em produtividade com técnicas modernas na agricultura, planejamento do plantio e da colheita.

A população tupinica, segundo vozes reprovadoras da reforma agrária e longe de corresponder à minha, é majoritariamente urbana e, por isso, não faz sentido repartir terras rurais, que estão muito bem nas mãos de poucos.

Oras, como o Brasil poderá investir em tecnologia na produtividade agrícola se ainda não superou a etapa de repartição das terras? O país está atrasado em reforma agrária. Do ponto de vista de grandes proprietários rurais, é natural que se demonizem movimentos sociais e protestos que objetivam a distribuição de terras, porém falta uma consciência coletiva.

O uso da palavra “invasão” em vez de “ocupação” contribui para a tendência dessas pesquisas inúteis que reiteram a visão de latifundiários. A “imagem do MST”, que foi solicitada pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) indica que a maioria dos tupinicas reprova a ocupação de propriedades. Quem é que daria uma resposta favorável a que um estranho entrasse em sua casa sem pedir licença?

Desvia-se, todavia, o foco da luta pela justiça social ao desrespeito de direitos de propriedade privada.

A defesa da reforma agrária esbarra na torcida agressiva do outro time. O caminho da repartição de terras no Brasil é fundamental para promover a redução de desigualdades. Concordo com que não basta dar terras se não houver uma continuidade da inserção no sistema produtivo das famílias beneficiadas com a reforma. Enquanto não se supera uma etapa, no entanto, não é possível impulsionar a outra.

O Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) elabora avaliações e políticas de acesso à terra, fiscalização de imóveis rurais para averiguar se cumprem a função social, combate à grilagem (que significa a posse indevida de terras mediante expulsão de seus proprietários e apresentação de documentos falsos), e repasse de recursos a entidades de apoio à reforma agrária. A instituição fiscaliza de 6 a 7 milhões de hectares por ano.

O INCRA dispõe de R$4,6 bilhões de orçamento para 2010. O recurso destinado à reforma agrária é cada vez maior.

Este tema exige uma postura radical dos governantes e ativistas sob o risco de sucumbir às mentiras e travas lançadas pelos opositores. Uma delas é a de desmerecer movimentos sociais que lutam pelos oprimidos ou a de advogar que, em vez de repartir, a tecnologia na agricultura de latifúndios por si só geraria retorno benéfico à sociedade.

As discussões e divulgações sobre a reforma agrária têm sido monopolizadas pelos que se opõem a ela. Falta a representatividade de opiniões divergentes.

A Unila e vizinhos desconhecidos ( Bruno Peron Loureiro )

Crônicas & Opiniões | Fonte: Bruno Peron Loureiro ( analista relações internacionais ) :: 27/01/2010

 Bruno Peron Loureiro - analista relações internacionais No dia 12 de janeiro, Luiz Inácio Lula da Silva sancionou o projeto de lei de sua própria autoria em prol da construção da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA). A cerimônia ocorreu no Centro Cultural Banco do Brasil em Brasília, Distrito Federal.

O presidente assinou o documento em dezembro de 2007, mas este só foi aprovado dois anos depois pelo Congresso Nacional.

A universidade funcionará provisoriamente em espaço cedido pela usina hidrelétrica de Itaipu em Foz do Iguaçu, cuja cidade fica no estado do Paraná e faz fronteira com Argentina e Paraguai. Zona turística e emblemática do encontro entre países vizinhos. Embora as instalações iniciais sejam temporárias, a Itaipu Binacional doou uma área de quase 40 hectares para a construção da universidade.

A concretização da idéia caminha muito mais rápido que o tempo que levou sua aprovação, uma vez que a previsão de início de turmas é para o segundo semestre de 2010. A previsão é de incorporar dez mil estudantes em cinco anos cuja formação se enquadre dentro de um projeto de integração latino-americana.

Algumas das ofertas de cursos de graduação serão: Sociedade, Estado e Política na América Latina; Relações Internacionais e Integração Regional; Comunicação, Poder e Mídias Digitais; Tecnologia e Engenharia das Energias Renováveis; Gestão Integrada de Recursos Hídricos; Interculturalidade e Integração. Estas propostas interdisciplinares respondem a um contexto de integração e, pela seleção dos temas, é improvável que sejam alvos da modalidade de ensino a distância, que inibe a proximidade e o debate numa sala de aula.

A criação desta instituição de ensino superior é produto de um fôlego secular. O murmúrio da integração não se pode ouvir até que alguém levante o tom da voz.

O cenário é curioso: um livro importado da península Ibérica pode custar mais barato que um similar de país vizinho; há dezenas de canais de televisão por cabo de conteúdo estadunidense nos pacotes ofertados no Brasil, alguns sem dublagem ou legenda, porém nenhum da Argentina, Paraguai ou Venezuela. A proposta de Lula justifica que, nalguns setores do desenvolvimento, a integração aproxima os povos da América Latina.

A UNILA é uma novidade na categoria porque, apesar do financiamento federal brasileiro e da localização do prédio no lado de cá, as aulas serão em espanhol e português, 50% dos professores serão brasileiros e a outra metade provirá dos países da região, 250 professores serão efetivos e outros 250, visitantes.

O reconhecimento das diferenças expande a nossa capacidade de auto-conhecimento e consciência de lugar no mundo. Algum dia a ficha dos nossos governantes teria que cair. Uma ficha que não tivesse inscrito cents, dollars ou euros. Destas já estamos fartos.

O presidente brasileiro atingiu, ao longo das duas gestões, um recorde nacional com a criação de treze universidades federais, o que ultrapassa a cifra anterior alcançada por Juscelino Kubitschek de dez instituições. A educação tem sido tema de destaque nas discussões nacionais.

Lula ainda propôs, para esquentar o tema da integração, um parlamento comum e uma moeda única entre os países da região do Mercado Comum do Sul (MERCOSUL). O cenário de crise econômica mundial, desvalorização do dólar e intervenção impudente dos Estados Unidos na América Latina (acordo de uso de bases militares na Colômbia, apoio tácito ao golpe militar em Honduras e envio de tropas militares abundantes em vez de médicos ao Haiti) favorecem estas propostas.

As conquistas no âmbito da educação e da integração são visíveis, embora o Brasil derrube lágrimas do outro olho quando limpa a que caiu do primeiro. Uma conquista costuma encobrir uma mazela na proporção de um para um. O mérito maior do episódio é o de aliar avanços na expansão de universidades públicas a projetos de integração regional. Somos vizinhos que mal nos conhecemos.

Desastre no Haití ( Bruno Peron Loureiro )

Crônicas & Opiniões | Fonte: Bruno Peron Loureiro ( analista relações internacionais ) :: 22/01/2010

 Bruno Peron Loureiro - analista relações internacionais O terremoto que teve lugar no Haiti em 12 de janeiro de 2010 comoveu o mundo.

Tarde funesta entre tantas outras carências. De país mais pobre e de menor renda per capita da América passou à condição de devastado. A natureza apontou o dedo e escolheu uma vítima geográfica que não teria condições de resistir. Não desta vez.

A exatidão do número de mortos não é o foco do debate. Corre-se o risco de cair na frieza das cifras.

O país divide o espaço de uma ilha com a República Dominicana, tem dez milhões de habitantes e taxa de analfabetismo de 47%. As imagens do pior desastre natural dos últimos duzentos anos no Haiti percorreram o sentimento de solidariedade em todo o mundo. A velocidade foi impressionante.

Vários países autorizaram doações milionárias e enviaram ajuda humanitária na forma de equipes médicas e socorristas, alimentos e medicamentos. O terremoto no Haiti mereceu o destaque que tem tido.

A capital Porto Príncipe ficou sem água, energia elétrica e telefone, ou seja, serviços básicos de infra-estrutura, e quarteirões inteiros foram demolidos em poucos segundos.

A tradução da expressão inglesa para os efeitos do desastre, que tem sido usada na imprensa internacional, é de que a cidade foi “achatada” ou “aplainada”. As imagens são entristecedoras: muita poeira e escombros, corpos soterrados e sobreviventes perambulando sem rumo, crianças desamparadas e famílias armando barracas em lugares públicos. O que era preocupante para as autoridades nacionais virou motivo de angústia.

Escaparam presidiários após o colapso da Penitenciária Nacional, o Palácio presidencial ruiu, e o aeroporto virou uma bagunça. Medo de saques, novos sem-tetos e tráfego aéreo intenso e descontrolado.

O difícil ficou ainda pior no Haiti. Na incapacidade de os governos anteriores tirarem boa parte da população da pobreza, a reconstrução da infra-estrutura passa a ser a prioridade no país. A ajuda internacional é imprescindível para este objetivo. A Minustah, missão de paz das Nações Unidas que age no país desde a deposição do ex-presidente Jean-Bertrand Aristide em 2004, contempla um desafio de proporções maiores.

É árdua a tarefa de reestruturar um país que tem sido, desde a vinda de Colombo ao continente, escoadouro de produtos como açúcar, café, algodão e cacau, base de uma economia agroexportadora. Conhecem-se outros países latino-americanos e caribenhos com história econômica similar.

Ainda, os Estados Unidos tiveram forte presença comercial, militar e política no Haiti ao longo do século passado. O governo estadunidense decidiu repassar cem milhões de dólares para a reconstrução do país devastado. Sobraram uns trocados da crise econômica mundial.

Os Estados Unidos declararam que desejam liderar a reconstrução do Haiti. Querem ficar com o filé. A reconstrução de países e regiões traz sempre boas receitas no futuro. Lembremo-nos do Plano Marshall.

Numa situação de emergência, qualquer ferramenta que esteja ao alcance é útil para a sobrevivência, o resgate e a ajuda humanitária. As imagens da desgraça no Haiti são tristes e estimulam os diversos países a buscarem convergências e reconhecerem formas de cidadania mundial.

O que acontece no Haiti mobiliza outros países como se o mundo fosse uma grande nação.

Costumo buscar informação minuciosa sobre algum acontecimento quando não tenho a oportunidade de experiência direta para sustentar uma opinião. A responsabilidade de elaborar argumentos e posições após rever dados e fatos é grande. A instantaneidade das notícias não pressupõe a deglutição do chiclete, por isso valorizo a reflexão sobre algum acontecimento alheio a qualquer tentativa precipitada de supor antes de estar seguro.

O cenário haitiano foi a vingança da natureza ao país equivocado. Desde um ponto de vista.

O conceito de justiça terrena está de um lado e o de cósmica, de outro. Certos eventos fogem do nosso entendimento. As próximas vítimas poderão estar em qualquer lugar, já que a natureza como a entendemos perdeu o controle e não se sabe onde mais apontará o dedo.

Verdadeiro ou falso ( Bruno Peron Loureiro )

Crônicas & Opiniões | Fonte: Bruno Peron Loureiro ( analista relações internacionais ) :: 18/01/2010

 Bruno Peron Loureiro - analista relações internacionais A relação intergovernamental entre Colômbia e Venezuela não está nos melhores momentos. Apesar de parecerem dois irmãos que não se bicam, o discurso do presidente colombiano Álvaro Uribe reitera que a política exterior de seu governo preza pela irmandade entre os povos que habitam estas nações. É válido até este ponto. O conflito, de ser assim, situa-se na arena de interesses divergentes dos mandatários e projetos dissonantes de resolução de problemas internos e inserção internacional.

Enquanto Uribe se conforma com a aproximação da Colômbia aos países nórdicos e tidos por mais desenvolvidos, o estadista venezuelano Hugo Chávez profere contra as investidas do “Império” na América Latina e obstina-se em apresentar projetos alternativos de integração entre os países da região, como a Alternativa Bolivariana para as Américas (ALBA). Os dois governantes falam de irmandade, porém analistas retomam frequentemente as categorias de esquerda e direita para situar quem é quem.

É dúbia a política colombiana que visa à luta contra o narcotráfico e o terrorismo através da abertura à ingerência dos Estados Unidos, cujo país tem sido historicamente um dos responsáveis pela espoliação da América Latina. Um tratado entre Bogotá e Washington autoriza o uso de sete bases militares colombianas a fim de que forças armadas forâneas somem-se às internas no combate ao tráfico de drogas, ondas de sequestro, assassinatos e outras demonstrações de violência. As tropas dos Estados Unidos, no entanto, travam guerras desnecessárias no Oriente. Que esperaríamos deles?

A crise diplomática entre Colômbia e Venezuela não é um bom princípio de ano novo na região senão um processo que estes países não têm podido conter devido ao descompasso entre os ideais de seus governantes e à orientação de suas políticas exteriores. Voltam a valer as hipóteses de que atores forasteiros promovem a desintegração da América Latina. A instabilidade política na região afeta os que dependem do passo frequente na fronteira ou do comércio entre os países.

Em meados de 2009, Uribe acusou a Venezuela de embargar contra a economia colombiana nos moldes do que os Estados Unidos fazem com Cuba desde pouco depois do triunfo da revolução. Exageros à parte, os discursos mais recentes de Uribe desmentem qualquer plano de guerra ou retaliação contra a Venezuela. Afinal, segundo ele, os dois países são irmãos. Se dependesse do efeito das palavras, Chávez sairia convencido. A realidade, porém, é outra.

A perenidade dos conflitos internos na Colômbia, que se devem em parte à incapacidade de os governos atenderem à demanda de guerrilheiros do sul do país e outros grupos que não se sentem suficientemente representados na política, tem induzido o país a buscar auxílio externo. Os vizinhos Equador e Venezuela resistem em aceitar a estratégia de reconciliação interna elaborada por Uribe e acabam por denunciar suas políticas como uma ameaça à integração dos povos sul-americanos.

Sobre as tentativas de análise da relação diplomática entre Colômbia e Venezuela, prefiro não acreditar que exista um verdadeiro e um falso, embora haja enormes inconsistências entre o que os discursos pregam e o que a realidade demonstra sobretudo no caso colombiano. Certas categorias de interpretação são inadequadas numa situação tão complexa, delicada e que envolve a vida de milhões de cidadãos que efetivamente nunca se enxergaram fora da irmandade.

Antes de que os ianques pisem em solo colombiano a fim de lutar por causas mercenárias, é desejável que façam ao menos uma oração com as palavras de Simón Bolívar, herói da libertação e da integração latino-americanas. Na negativa, o arrependimento poderá ser mais doloroso.

Propaganda enganosa ( Bruno Peron Loureiro )

Crônicas & Opiniões | Fonte: Bruno Peron Loureiro ( analista relações internacionais ) :: 14/01/2010

 Bruno Peron Loureiro - analista relações internacionais A política de incentivo ao uso de etanol nos convida novamente ao picadeiro. Como se não bastassem os assaltos constantes ao nosso dinheiro, a gasolina será mais vantajosa que o álcool por alguns meses para a decepção dos portadores de carros bicombustíveis (flex). A propaganda a favor da substituição dos tanques de combustíveis foi ostensiva anos atrás. Hoje nem todos os brasileiros temos paciência para fazer o cálculo dos 70% antes de abastecer. Fomos enganados.

O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento culpou o excesso de chuvas no período de colheita de cana-de-açúcar, que inibiu o corte de mais de 60 milhões de toneladas. A mesma instituição pública federal previu que o mercado de etanol se normalizaria em até 120 dias. Está na moda culpar as chuvas pela incompetência humana no Brasil. Foi assim no apagão de novembro de 2009, que, para mim, não passou de uma conspiração. Evento mal explicado.

Ainda que a produtividade tenha aumentado na transformação de cana-de-açúcar em etanol devido aos avanços tecnológicos, o preço se define pelo mercado internacional. Vale apontar que 2/3 do etanol brasileiro é exportado porque convém à lucratividade da indústria de álcool. Portanto, o argumento das chuvas é pífio. Explico: o álcool não teria faltado aos brasileiros pela colheita menor de cana-de-açúcar se não houvesse sido mandado ao exterior pelo atrativo deste mercado.

Para os produtores, o raciocínio é simples: em vez de produzir dez litros por um real, poderão vender cinco litros pelo mesmo preço final se o lucro for maior.

Se o Brasil tivesse uma política de segurança energética, assim como os Estados Unidos elaboraram a sua para proteger o consumidor estadunidense, o etanol seria um produto barato para o consumo interno e o brasileiro teria prioridade na compra. A servilidade do governo tupiniquim aos latifundiários e o mercado internacional relega-nos a fazer preces para que o preço do etanol baixe ou para que chova menos no próximo verão.

O dessangramento do consumidor brasileiro não pára aí. Com a redução da safra de cana-de-açúcar da Índia, que é um dos maiores produtores mundiais, o Brasil tende a abastecer o aumento de demanda internacional em detrimento do consumo interno. Ainda, fala-se do risco de as usinas substituírem a produção de etanol pela de açúcar devido à alta do preço internacional do segundo produto. Logo se anunciou a política que reduz provisoriamente de 25% a 20% a percentagem de álcool na gasolina a partir de fevereiro. O mercado define se o brasileiro estará satisfeito ou não.

Resumindo: somos imensamente roubados neste país! Por isso que há dois Brasis: um dos tolos e outro dos instruídos. A complacência dos tolos inibe a insatisfação dos instruídos. O resultado da equação é a injustiça com a nação. Aos poucos, a seriedade cede espaço ao circo e a instrução vira motivo de zombaria. Qualquer brasileiro nesta situação colheu a mofa antes do respeito.

Energia é uma questão estratégica em qualquer país. O Estado tem a obrigação de zelar por ela. Em vez disso, o júbilo pela descoberta de petróleo na camada pré-sal contraria o discurso oficial de aumentar o uso de energia limpa no Brasil. Quando o país tem a chance de ser o exemplo mundial com o uso de etanol e biodíesel, sofre a recaída em modelos de apropriação de petróleo.

Propaganda enganosa ou reflexos de um país que não sabe aonde quer chegar?

Brasileiros no Suriname ( Bruno Peron Loureiro )

Crônicas & Opiniões | Fonte: Bruno Peron Loureiro ( analista relações internacionais ) :: 11/01/2010

 Bruno Peron Loureiro - analista relações internacionais O interior do Suriname foi palco de um episódio de violência que os grandes meios de comunicação insistem em velar que são comuns no Brasil. Enquanto se criticou o país vizinho como uma “terra sem leis” porque a polícia não mostrou a cara quando precisou, o que seria o Brasil e a institucionalização do banditismo que transforma a nossa legislação em patrono dos poderosos?

Era véspera de Natal. Durante a reunião de famílias na noite de 24 de dezembro de 2009 em Albina, região fronteiriça com a Guiana Francesa e a 150 quilômetros da capital Paramaribo, houve um ataque com cacetetes, facas e facões a mais de 200 estrangeiros no Suriname. Golpes atingiram quem estava na frente. Não foi, portanto, um ato discriminado contra brasileiros porque, entre as vítimas, havia também chineses, javaneses, colombianos, peruanos e de outras nacionalidades.

Por alguns dias, só se falou disso. E não é à toa. A nuvem do sensacionalismo encontrou seu espaço para situar brasileiros, como sempre, na arena das vítimas.

Responsabilizaram-se pelo ataque os quilombolas surinameses conhecidos como “marrons”, que até então conviviam pacificamente com estrangeiros segundo depoimentos. O que provocou a ira dormente dos nativos? Duvido que um ato isolado mobilizaria centenas de surinameses, como num conluio, a agredir, depredar, estuprar, queimar carros e casas. Falta peça no quebra-cabeça.

O Suriname já sofreu de colonialismo, ditadura, conflitos étnicos, penúria, contrabando, tráfico de drogas e o setor comercial contratou segurança privada para conter a violência. A uma população total de 440.000 surinameses, somam-se mais de 15.000 brasileiros que trabalham no garimpo de ouro. Entre as vítimas de nacionalidade brasileira, a maioria exerce atividade ilegal no país.

Logo após o episódio, aviões oficiais brasileiros pousaram no Suriname em missão de resgate, porém uma minoria quis regressar. Voltariam ao Brasil para fazer o que? Não é simples reconstituir o ambiente de trabalho. Tudo indica que é melhor roubar por lá que ser roubado por aqui. Naquela ex-colônia holandesa que se independentizou em 1975, o contrabando é uma forma de não pagar o imposto de 38% criado pelo governo surinamês sobre o lucro das vendas de ouro.

O tráfico de drogas e o contrabando de ouro são algumas das modalidades de banditismo que o Brasil exporta. Vão para fazer coisa errada. Antes de sensibilizar-se com a visão dos brasileiros no Suriname, ainda que a violência não se justifique em lugar algum, nunca é demais recordar do massacre que o Brasil promoveu covardemente no Paraguai no século XIX pela guerra da Tríplice Aliança. Triste lembrança. Exterminou-se quase a totalidade da população masculina paraguaia.

A mensagem é de que o Suriname é dos surinameses. Faz-se o mesmo naquele país por forasteiros que se fez no Brasil em prol de países mais poderosos e em prejuízo dos recursos naturais locais. Nações vizinhas buscam maneiras de resistir ao fluxo internacional de empreendedores e mão-de-obra desde o Brasil, que não tem sido capaz de assegurar a justiça interna no trabalho. Se os atos ilícitos esquivaram o governo surinamês, não tiveram a mesma felicidade com os nativos.

Provoca indignação que, na chamada da oportunidade, brasileiros reproduzam modelos de exploração e práticas ilegais noutros países. Algo não está bem na nossa relação com os vizinhos.

Brasil de pernas abertas ( Bruno Peron Loureiro )

Crônicas & Opiniões | Fonte: Bruno Peron Loureiro ( analista relações internacionais ) :: 03/01/2010

 Bruno Peron Loureiro - analista relações internacionais O setor produtivo ocupa esferas inimagináveis. Mal temos tempo para pensar. A respiração, por sorte, realiza-se involuntariamente. Como se não bastasse, decisões importantes para o Brasil têm sido tomadas por pessoas ineptas e que sustentam o interesse próprio. Este artigo desembaralha a visão dos que ainda definem suas vidas em função das “exigências do mercado”.

Há rastros tão fortes de mediocridade neste país, que temos perdido o senso de coletividade: empresas assenhoreiam-se do espaço público, direitos só servem para dar emprego a burocratas e ludibriar os que ainda creem na cidadania, o clientelismo corrói segmentos diversos da vida em sociedade e há os que dizem – prefiro resistir – que fenecem os que não fizerem parte do “sistema”.

Confesso que, quando divago sobre as mazelas do Brasil, não sei por onde começar. Enfoco um problema e logo descubro que há uma série de outras peças de dominó que não tomei em conta. O contraponto básico a que me refiro, a fim de que não haja chiado na estação, é de que tudo é voltado ao setor produtivo em nosso país. Uma conversa descontraída pode-se converter em negócio.

O crescimento exagerado da população é um negócio; o excesso de mão-de-obra desqualificada é um negócio; os recursos naturais, desde que recebemos naus portuguesas, é um negócio; a ignorância é um negócio; a perenidade de um campo de oposição entre Estado e mercado nos debates políticos é também um negócio. Sobre este último argumento: pagamos impostos elevadíssimos à máquina pública, porém temos ainda que dispor de planos de saúde, seguros de automóveis e pedágios em rodovias.

Palestras de motivação empresarial me dão asco, qualquer tentativa de conversão de algo em negócio me provoca repúdio, e o caminho que tem trilhado o Brasil tanto interno como externo é de uma prostituição barata. Nossos jovens estão sendo convidados a se “profissionalizar” para servir o resto da vida como mão-de-obra descartável de grandes empresas sanguessugas.

O país está de pernas abertas. Nossos políticos ainda se acham “autoridades” e não notam o funeral que se lhe reserva à categoria. A solução encontrada por muitos é a de descentralizar a política, criar formas paralelas de poder através de movimentos sociais e organizações não-governamentais, mostrar-lhes que não nos serve uma política que não escuta os cidadãos.

E o tal do setor produtivo como volta nesta história? Dogmas do trabalho incentivam a inserção nele o quanto antes por necessidade, valor ou para engordar indiretamente o bolso de poucos. O labor no capitalismo é muito diferente do conceito num sistema alternativo, socializante, onde se trabalha para a humanidade. O primeiro modelo está vinculado a uma ordem concentradora, cruel e enganadora.

O trabalhador é iludido até mesmo em suas poucas horas dedicadas ao lazer. Entra novamente o setor produtivo quando se faz uso da televisão aberta, mas com investimento elevado em publicidade de grandes marcas que não dão vez às pequenas, ou de espaços que se cedem à iniciativa privada para a emulação da modernidade. Os shopping centers são uma mostra dos males urbanos.

Não fazemos idéia do que significa contratar um mal motorista para a locomotiva chamada Brasil. O país está uma desgraça. Útil para investidores porque só querem espoliar o nosso dinheiro. Pagamos caro nos impostos, combustíveis, pedágios. Não sei como não estamos em guerra civil. Dizem que somos um povo pacífico. Discordo. Somos explorados, ignorantes e submissos.
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