Crônicas & Opiniões - Coluna de colaboradores do Correio
Atenção: As matérias aqui editadas são inteiramente de responsabilidade de seus autores.




A cidade, a história e o rio ( Petrônio Souza Gonçalves )

Crônicas & Opiniõe | Fonte: Petrônio Souza Gonçalves ( Jornalista e escritor ) :: 02/09/2010
 Petrônio Souza Gonçalves é jornalista e escritor Muito tem-se falado sobre a revitalização do rio São Francisco e pouco sobre a revitalização das cidades que estão às suas margens. Assim como o rio, muitas delas, agonizam.

Pirapora - onde o peixe pula - cidade pólo do norte mineiro, precisa urgentemente ser revitalizada e junto ao seu povo ser feita a transposição social e cultural que coloque na pauta do dia a preservação do rio aliada ao turismo, como mola mestra de um novo tempo na região norte mineira. É preciso criar em nosso país a consciência da integração entre as pessoas e os projetos implantados, inserir o ser humano em programas pontuais, criando uma nova forma das comunidades verem e pensarem o velho mundo que as cerca. Isso é, sobretudo, o princípio da cidadania.

Os hotéis, outrora pomposos, confortáveis, constatamos o fantasma decadente de suas ultrapassadas estruturas. O exuberante vapor Benjamim Guimarães, a portentosa ponte belga, o rio, os pescadores com sua pesca artesanal, os escultores e suas carrancas, a culinária sui generis nascida entre o rio e o cerrado, as histórias que o tempo não levou, a vida barranqueira e os buritizeiros formam um cenário único, que devido a uma visão destoada da modernidade deixa tudo à míngua, esquecidas, à margem da história.

Me pego a pensar como seria Pirapora se todo esse cenário natural, gastronômico e cultural estivesse em qualquer país da Europa! É constrangedor constatar o potencial turístico de toda região e ver a penúria em que ele se encontra. Temos história, nos falta inspiração.

Longe dos investimentos e das verbas estruturais, todo um potencial magnífico rui em plena luz do dia, tendo o silêncio confortável das autoridades como cúmplice. Assim vai esfacelando a vocação turística de Minas Gerais, do sul ao norte, das águas ao sertão, enquanto os escombros de nosso tempo soterram todas as nossas esperanças.

Na Barra do Guaicuí, local do mágico encontro de Riobaldo e Diadorim, no tempo eterno da imaginação humana, poderia ter um monumento, uma praça, um ponto de visitação com encenações do histórico fato. A saga Roseana tem ali um ponto natural, com suas sombras e suas ruínas, onde poderia abrigar um centro cultural com acervos literários, documentários, fotos e tantas outras manifestações mais.

Enquanto o mundo inteiro caminha em busca das indústrias limpas, em que o turismo é a grande vedete, o Brasil insiste em destruir suas belezas doadas e abençoadas por Deus. Mundo afora, o turismo apresenta suas cifras estratosféricas, com poucos e dispersos investimentos, tendo como retorno uma extensa cadeia produtiva, empregadora e arrecadadora. Nada mais oportuno para um país de poucas oportunidades como o Brasil, como o Norte de Minas.

Pobre em indústria e rica em belezas naturais, Pirapora e as margens do rio São Francisco vivem à míngua de suas riquezas, fruto da eterna ingerência humana, triste paralelo de uma realidade cruel e terceiro mundista, de um povo que insiste em não prosperar, em não crescer. Querem o que não tem, como se garimpassem fora o fabuloso tesouro que já está descoberto, sob seus pés.

Ainda assim, o São Francisco, que é santo, doa vida a todos que estão à sua volta. Apesar de tudo, ainda é belo, maravilhoso, mágico. É apenas um corpo doente, a quinta parte do que originariamente era.

Enquanto isso, a água passa debaixo da ponte, levando nossas histórias e nossa trágica vida diária, pobre de honras, pobre de glórias. Até quando, não sei.

Mais que uma epidemia social ( Petrônio Souza Gonçalves )

Crônicas & Opiniõe | Fonte: Petrônio Souza Gonçalves ( Jornalista e escritor ) :: 08/08/2010
 Petrônio Souza Gonçalves é jornalista e escritor Sem saber como combater a nova epidemia social, segue o crack dizimando famílias, destruído gerações, aprisionando almas e corações pelos centros urbanos e nos mais distantes grotões do Brasil.

A nova praga se alastra e contamina hordas de simples trabalhadores rurais, de pobres coitados nos centros urbanos, de mendigos nas grandes, médias e pequenas cidades, em todas as regiões do Brasil, em cada canto de nosso país. Se não bastasse tão diversificado perfil de usuários, a constatação de jovens de classe média e classe média alta também integram a lista das últimas vítimas da epidemia que se tornou mania entre os adolescentes brasileiros.

É um contingente de usuários tão vasto, que chega a ser difícil identificar e traçar um perfil de como prevenir e tratar os que são acometidos por essa droga sem rosto, sem identidade, que veio para ficar e deixar sua marca no futuro de todo um país.

No interior de Minas, testemunhei a droga chegando e se alastrando na mesma proporção em que os chapéus de palha foram sendo substituídos pelos gorros dos clips musicais americanos. Era uma mudança cultural, substancialmente comportamental. A televisão trazia para a parte esquecida do Brasil uma vida que nunca foi a deles, que não lhes pertencia.

Por outro lado, a droga se revelava como a grande novidade que chegou, como a parte podre de um mundo que eles viam e não viviam, que não lhes cabia. O terreno estava preparado para semear as novas tendências do mundo moderno, aquelas que vendiam sonhos, ilusões e um gosto novo, acessível, de uma ilusória realidade.

Tudo isso, para quem vive à margem dos privilégios do mundo e da sociedade, justificava a nova viagem em que passaram a encontrava resposta no crack, tão barato que em uma baforada ingressava-se em um mundo quase perfeito. Era sedutor demais o que aquele passaporte envolto em papel laminado oferecia aos mais humildes, desprovidos de informação, cidadania e cultura.

Em uma sociedade tão desintegrada, tão vulnerável comportamentalmente e culturalmente como a nossa, a parte mais carente de quase tudo se torna desarmada frente a essas investidas baratas de um mundo sem pátria, sem fronteira, que busca o que não se pode comprar. Hoje, a realidade do crack é a realidade de uma sociedade adoecida, viciada, rendida e vencida. Se uns são seduzidos pelo vazio preenchido pelo nada, outros vão no embalo do modismo, sem saber que muitas vezes essa viagem é sem volta.

Acredita-se em 1 milhão de doentes no Brasil, com chances de recuperação baixíssimas. Um verdadeiro exército de consumidores e aliciadores, muitos a serviço do tráfico, com envolvimento em assaltos e prostituição. É o esfacelamento das comunidades, da convivência social.

Ainda assim, pouco se ouve sobre essa triste realidade e muito pouco se faz para barrar o mal visível que acomete todas as classes sociais. Problema social, de saúde pública, os relatos envolvendo usuários de crack se multiplicam e, para nosso maior espanto, envolvendo famílias inteiras, pai, mãe e filhos.

À sombra de um tempo com tantos avanços tecnológicos, constatamos a regressão de uma sociedade adoecida, que caminha sem saber para onde, tendo apenas a desesperança como guia.

Institutos e instituições ( Petrônio Souza Gonçalves )

Crônicas & Opiniõe | Fonte: Petrônio Souza Gonçalves ( Jornalista e escritor ) :: 30/07/2010
 Petrônio Souza Gonçalves é jornalista e escritor As convicções e manifestações políticas dos brasileiros dançam de acordo com os números e porcentagens dos candidatos nas pesquisas. Tudo muito bem pesado, pensado, não importando idéias, posturas e projetos apresentados. Essa é nossa frágil democracia, que não resiste a mais doméstica pesquisa.

Para cada candidato, um instituto entrincheirado atrás das verbas federais e institucionais, maquiando números, arquitetando abordagens, realizando tendenciosas perguntas, sugerindo uma realidade. Na margem de erro, os números fraudados, para cima ou para baixo, como um álibi, uma resposta ao proposital equívoco.

Não é de hoje que esse mal é praticado Brasil afora, com sérios prejuízos para a nossa inocente democracia. Em larga escala, em proporção nacional, beneficiando sempre os grandes grupos, os grandes candidatos, as grandes corporações. Os pequenos partidos, depois de soterrados por esse ou aquele instituto, ficam calados, recolhidos a sua democrática insignificância. Assim é o Brasil, um país que acredita mais em referendo que em eleições, mais em mandatos acordados que na manifestação espontânea de uma futura liderança.

As eleições em nossa terra de Cabral se transformaram em um jogo de cartas marcadas, de eleitos pela decisão dos poderosos e aferidos pelo poder do voto, tudo costurado com os institutos de pesquisa, que servem sempre a apenas um senhor, o contratante.

É lamentável constatar que depois do voto de cabresto temos o voto induzido, tão eficaz quanto o silêncio aprovador que paira sobre ele. Não é exagero dizer que após o voto eletrônico, teremos uma possível eleição virtual, pois a credibilidade que se consolidou em torno das pesquisas nos faz pensar em uma futura substituição do voto pelo cadastro. O voto se tornou tão secreto que até sumiu e o outro pode ser conferido, pois foi todo ele respondido e quantificado. Que inversão de valores.

Ainda assim, como se fossemos abduzidos pelos números das pesquisas, o eleitor vai depositando seu voto naquele que lidera, sem nunca analisar o processo que o fez chegar ali. Como parte integrante desse jogo, os grandes veículos de comunicação dão em destaque as últimas enquetes, aferindo a nova realidade que muitas vezes produziram.

Bom, diante disso tudo, o eleitor, que deveria ser consultado e conquistado, é apenas abduzido pelas pesquisas, pelo marketing dos candidatos, pelos programas produzidos, pelos discursos maquiados. Depois de eleito, a grande surpresa se revela, pois tudo aquilo em que se acreditava votar era apenas uma encenação, uma criação midiática, um tempo de campanha, que não tem nada que ver com a realidade e as convicções dos escolhidos. Talvez por isso, tantos nomes figuram hoje nas listas apresentadas.

Entre o velho e o viciado ( Petrônio Souza Gonçalves )

Crônicas & Opiniõe | Fonte: Petrônio Souza Gonçalves ( Jornalista e escritor ) :: 23/07/2010
 Petrônio Souza Gonçalves é jornalista e escritor Pelos jornais os principais candidatos à presidência da República se digladiam, em um dantesco big brother político e midiático. No paredão, o futuro da nação assiste a inexistência de programas de governo, quando é eliminada a esperança de mudança em um futuro próximo. Tudo, uma sucessão de ataques desnecessários, pueris, que acrescentam nada à democracia, à política e a consciência cívica de um povo.

O descompromisso é tanto, que eles assinam plano de governo, protocolam e depois retiram todas as prioridades propostas, revelando como é barata e mutável a sua compreensão, seu sentimento de estado, seu comprometimento com o futuro do país. Vergonhoso!

Vivem a política não para mostrar uma forma nova de ver o mundo e de pensar uma nação, os destinos de um povo. Mas para manter os cargos comissionados, os contratos acertados, a velharia da velhacaria institucionalizada em que fundamentaram a sua vida pública. Cada um representando o continuísmo, a perenização de um grupo, sem nada de novo para acrescentar ou sugerir. Tudo velho e viciado.

A democracia só se justifica pela renovação do poder, da oxigenação da administração pública, pela necessidade de discutir planos, apresentar propostas, apontar caminhos, um novo enfoque nos destinos e anseios de um povo. Se fosse apenas para continuar, muito mais fácil e barato dar um mandato vitalício para esse ou aquele governante, acreditando ser a vida pública apenas administrar os avanços conquistados, pavimentar ruas e direcionar verbas para pobres programas sociais. Não apresentam o que farão, mas gritam aos quatro ventos o que vão manter. É a total falta de mobilização, de participação popular, de inspiração, como se não fosse mais preciso sonhar. É o apagão ideológico que se abateu sobre o Brasil, uma profunda prostração civil.

Ainda assim, com toda essa pasmaceira política vivida até aqui, o eleitor assiste calado ao big brother protagonizado nas páginas dos jornais e nas telas das tevês. Os atores são tão fracos, tão ruins, tão medíocres, que não despertam sentimento algum nos espectadores, que diante da indiferença, declaram calados seu mais profundo desprezo. Tudo tão rasteiro quanto nossa consciência cívica, que aceita submissa os arranjos e acordos políticos repetidos e reeditados em plena luz do dia, ano a ano.

O pior disso tudo é que vamos permitir o adiamento, por mais quatro anos, do sonho de divisar um país novo, calcado em novos valores, em uma nova mentalidade de nação e povo.

Quando os pássaros adormecem ( Petrônio Souza Gonçalves )

Crônicas & Opiniõe | Fonte: Petrônio Souza Gonçalves ( Jornalista e escritor ) :: 18/06/2010
 Petrônio Souza Gonçalves é jornalista e escritor Os grandes são sempre maiores. De perto, agigantam-se, aprumam vôos, fazem sombra sem nunca nos privar de sua luz. Assim vi, ouvi e convivi com o presidente da Academia Mineira de Letras, assim conheci o ser humano Murilo Badaró, ex-ministro e ex-senador da República.

Sua vida foi um palco iluminado, ora pela política, ora pelas apresentações como cantor de ópera, quando usava o pseudônimo de Ricardo Villas e arrebatava multidões na Belo Horizonte dos anos 50. Seu talento era tanto, que um parceiro de palco me confidenciou: “Por maior político que o Murilo tenha sido, ele nunca iria superar o barítono que era!”

Seu grande projeto era comemorar os 80 anos, em 2011, com uma grande festa, quando distribuiria um cd com suas óperas resgatadas. Ao imaginar o evento, finalizava: “Será que eu vou conseguir chegar até lá?”

Fez da voz a sua espada, da palavra o seu caminho e duelou com o mundo à sua volta. Jovem deputado estadual, depois de se aconselhar com o pai, tomou a tribuna da Assembléia Legislativa de Minas Gerais para protestar contra a cassação de Juscelino. Discurso este que os militares nunca perdoaram. Depois, como deputado federal, votou contra a cassação de Márcio Moreira Alves, o que quase lhe fez perder o mandato. Ao saber que quem o salvou das garras militares foi o adversário e vice-presidente Pedro Aleixo, foi agradecê-lo, quando ouviu de Aleixo: “Que isso, essa reunião foi secreta, portanto, ela nunca aconteceu. Se ela não aconteceu, não tem nada que agradecer meu filho”.

Muito poderia dizer do homem público, dos vários cargos e mandatos, do escritor de várias obras e premiadas biografias, do acadêmico respeitado que tinha como chave da porta para as realizações dos nossos sonhos e projetos junto à Academia Mineira de Letras apenas um telefonema inesperado. Quando tudo parecia esgotado, ele se lembrava de alguém, ligava e tudo renascia. Era um parceiro perfeito...

Eu, seu funcionário, sempre me convidava para acompanhá-lo nas viagens, o que era minha obrigação. No trajeto, contava histórias, rememorava fatos, dividia confidências e inconfidências, viajava no tempo tendo ao lado um atento e sereno passageiro.

Trazia no peito a chaga aberta que nunca cicatrizou, por ter sido impedido a se candidatar ao governo de Minas pela Arena, quando estava em sua melhor forma e a vitória lhe parecia certeira. Havia visitado todas as cidades mineiras da época, em todas as regiões. Ao rememorar a campanha, me contava: “Estava em casa à noite quando recebi um telefonema de uma cidade que ainda não havia ido. Respondi: Pode ajuntar o pessoal que amanhã eu estarei aí na hora do almoço”. Esteve! Era verdade o que o seu slogan dizia: “Não importa em qual cidade de Minas que você nasceu, Murilo Badaró já esteve lá!”. Era o trenzinho das melhores tradições mineiras varrendo o interior de sua gente. Essa mágoa o consumiu até o último minuto de sua vida.

Me ensinou, em política, a diferença entre o adversário e o desleal. Me fez ler a história pelas entrelinhas. Os discursos, pelas interrogações. As versões, pelas pausas.

Fui com ele visitar antigos correligionários no Sul de Minas e pude testemunhar a comovida força da amizade que os unia, além do tempo e espaço, coisas que não existem mais. Ao final, indagou: “Como eu poderia ser político nos dias de hoje?”. Como que vencido pela imperiosa realidade, constatei: “O senhor não sabe o bem que fez a eles com essa visita”.

Certa feita, fomos a Juiz de Fora. Como era de seu feitio, chegamos antes, muito cedo. Juiz de Fora amanhecia. Sentamos em um banco da praça para ler os jornais do dia. Do outro lado da rua, dois mendigos acordavam na praça e começaram a discutir. Um deles veio até nós e perguntou ao Murilo: “O senhor é adevolgado ou juiz?” Murilo respondeu: “Sou padre. Este aqui é meu sacristão”. “Uai, então me dê uma bençãozinha aqui seu padre!” Murilo fez o sinal da cruz no ar e falou: “Vá em paz e que Deus te acompanhe.” O mendigo voltou para onde estava seu companheiro e falou baixinho: “Hoje estou com sorte, fui abençoado pelo padre Murilo Badaró”.

Ultimamente, estava de volta ao bom e velho combate, motivado pelo convite do ex-presidente Itamar Franco para compor a chapa de Itamar como suplente na candidatura ao Senado. E não parava de idealizar projetos. Imaginava fundar uma editora, tendo a participação de um dileto amigo. Queria dinamizar a Fundação das Academias de Letras de Minas Gerais, criada por ele em 2009, com o nome de FALEMG.

Na segunda-feira, dia 14 de junho, não foi à Academia. Às 18h7 terminamos nossa ligação aos risos. Às 19h45, foi encontrar-se com o pai e o avô, no céu, só faltou combinar com a gente. O infarto foi fulminante. Quando cheguei a sua casa, dona Lucy, sua esposa, estava abraçada a ele, como que se quisesse trazê-lo para a longa caminhada, para os palcos da vida, seu lugar natural. Ela representava todos nós, mas ele já não estava mais aqui.

Murilo Badaró levou com ele um pedaço de nós, daqueles sentimentos nobres que todos os dias nutria em cada um que estava a sua volta, indistintamente. O sentimento da boa convivência, do respeito às opiniões, do amor à literatura, do livre pensar, uma forma leve de ver o mundo e encarar a vida. A convivência com ele era uma renovada alegria, um privilégio.

Um dia, quando já tarde da noite íamos embora, na garagem cheia de carros e passarinhos, Carmen, sua secretaria, acendeu a luz para abrir a porta do carro. Ele protestou: “que isso Carmen, assim você vai acordar os passarinho”, saiu do carro e apagou a luz.

Essa é a imagem que trago dele, um homem que vôo alto mas nunca esqueceu dos passarinhos aprisionados, dos passarinhos esquecidos que não descobriram a liberdade do ar, os passarinhos do canto limitado, do vôo retido. Na verdade, acho que ele era, no mais fundo, um deles também.

A Mata Atlântica em Minas ( Petrônio Souza Gonçalves )

Crônicas & Opiniõe | Fonte: Petrônio Souza Gonçalves ( Jornalista e escritor ) :: 31/05/2010
 Petrônio Souza Gonçalves é jornalista e escritor No dia 27 de maio foi comemorado o Dia Nacional da Mata Atlântica. Porém, não temos nada que comemorar. Minas lidera o desmatamento do maior biodiversidade brasileiro em biodiversidade no Brasil. Só em nosso Estado, entre os anos de 2008 e 2010, registramos mais de 12,5 mil hectares desmatados. Para o amigo leitor ter uma idéia clara, é como se desmatássemos em apenas 2 anos, mais de 15 mil campos de futebol, ou 20 campos de futebol a cada dia, mais precisamente, 7,5 mil campos de futebol a cada ano.

Não podemos dizer apenas que isso é um desmatamento, mas é, sobretudo, uma matança. Matança de uma flora inexistente em qualquer outra parte do planeta, matança de espécies raras de animais de pequeno e médio porte, levando a extinção de espécies inteiras de mamíferos, anfíbios, aves. Matança de minas d’água e conseqüentemente de nossos rios, consumando assim um processo de extinção da vida em nosso planeta. Vale lembrar que estudos sérios apontam que no vizinho ano de 2030 já teremos problemas com a potável disponível no mundo. Dói saber que todo esse processo se inicia no quintal de nossas casas, nos limites de nosso Estado.

Os números divulgados quanto a Mata Atlântica em nosso Estado chegam a ser vergonhosos para Minas Gerais, como comprova a matéria publicada no dia 27 de maio, em esclarecedora reportagem do jornal Estado de Minas. Quando o desenvolvimento com sustentabilidade se torna o grande ponto de debate e de adoção política no mundo contemporâneo, Minas nos apresenta estes dados lamentáveis, incompatíveis com a mentalidade que norteia e guia o mundo atual.

Em Minas Gerais havia, originariamente, 46% do seu território coberto pela Mata Atlântica, povoados por árvores magníficas, plantas das mais diversas, aves exuberantes, cachoeiras caudalosas, rios repletos de peixes, cheios de vida. Hoje, restaram apenas 9,6% dessa área, como se fossem ilhas dispersas, isoladas, sem a continuidade da vida ao seu redor.

A discussão que se faz necessária neste momento junto à comunidade internacional não é restrita se deve ou não desmatar, se deve ou não preservar as florestas nativas do mundo. O que se discute neste momento é a preservação da espécie humana na terra, a continuidade da vida como a conhecemos hoje, pois o que os estudos apontam é um futuro desastroso para a preservação da espécie humana, em um ambiente criado com a diária destruição ambiental, com a poluição dos rios e o envenenamento das águas que deveriam abastecer o planeta.

Tudo isso vivemos em Minas, com o contumaz desaparecimento da Mata Atlântica e a destruição de um dos mais ricos biomas do mundo. Sem perceber, isso tudo reflete na vida de cada um de nós, pois não somos a teia da vida, mas um fio que se liga a ela.

É hora de pararmos para avaliar qual o futuro que queremos para nosso país, para nosso martirizado planeta Terra. E, para o bem ou para o mal, esse futuro passa pela decisão que tomaremos em relação ao que vamos fazer pelo meio ambiente, pelas matas do mundo inteiro, especialmente à Mata Atlântica mineira.

Minas e seus nomes ( Petrônio Souza Gonçalves )

Crônicas & Opiniõe | Fonte: Petrônio Souza Gonçalves ( Jornalista e escritor ) :: 13/05/2010
 Petrônio Souza Gonçalves é jornalista e escritor É com esmero que o presidente da Academia Mineira de Letras, Murilo Badaró, se debruça sobre a história política de Minas e dos mineiros no século passado e nos dá os melhores fatos. De sua lavra já saíram quatro belas e destacadas biografias, misturando cenários que conduziram a política mineira na Nova República. A primeira foi a do folclórico José Maria Alkmim, em 1998. Daí, Murilo não parou mais. Vieram, nos anos seguintes, Milton Campos - O Pensador Liberal, e Gustavo Capanema - A Revolução na Cultura, ambos em 2000.

Agora, alguns anos depois, como se descansasse de uma longa caminhada até onde principia o mistério do drama e da flora na alma destes mineiros que fizeram a história do Brasil republicano, Murilo Badaró lança, em 2010, o imperdível “Bilac Pinto, o Homem que salvou a República”.

O livro é, sobretudo, uma lição de história, uma preservação de nossa memória, uma aula do que foi o Brasil na metade do século passado. Deputado, ministro e senador, Murilo Badaró fala do que viu, ouviu e viveu. Poucos teriam a capacidade de decifrar a história de figuras emblemáticas com tanta propriedade e conhecimento de causa como Murilo, pois ele revê a história nas entrelinhas, mais que nas páginas do diário oficial. Murilo sabe o antes, o durante e o depois. Sabe a verdade dos gabinetes, dos bastidores; a verdade das ruas e das urnas. Fez parte de ambos, sempre de forma destacada.

O título do livro deriva do golpe dado contra Juscelino, não contra a república trabalhista que Jango nunca teve e nem teria competência para comandar. A versão institucional não se ajusta à verdade histórica, aquela que enganou a todos, até Juscelino e Bilac Pinto, ambos ludibriados e apeados do prometido poder futuro.

Para entender parte dessa história, coisa que nem mesmo os mineiros dizem a si mesmo, vale relembrar o discurso de Bilac Pinto, que está inteiro no livro, consumando o final do desastroso mandato de João Goulart, pouco antes da ditadura engolir os nomes mais preciosos de Minas que ladeavam o poder que ascendiam, permitindo a uma outra geração um efêmero poder como recompensa.

Como que se falasse do processo que ele liderava e de seus resultados, Bilac, com sua inteligência superior, antevê o futuro, sem saber que esse futuro seria duramente duradouro. Assim vai ele: “A investidura legal no cargo de presidente da República constitui apenas condição de legitimidade para que um cidadão exerça esse alto posto, mas ela, por si só, não realiza o milagre de colocar o titular à altura de sua missão e nem o transforma num autômato capaz de desempenhar com matemática precisão cada uma de suas funções. A presidência da República, para ser exercida com razoável eficiência, exige que seu titular, além de reunir as qualidades pessoais que o habilitem a desempenhar a chefia da administração civil, das Forças Armadas e da política externa, tenha também aptidão para exercer o papel de líder nacional, que é inseparável da sua condição de chefe de estado”.

Bom, Murilo está em plena forma. Para saber de Minas, é só perguntar a ele. Para saber sobre a política mineira, é só estar com ele. Agora, para saber a vida e obra de mais um destacado mineiro, é só aguardar, coisas novas vêm por aí. Quem sabe João Pinheiro, um homem tão comentado, seja o próximo biografado!.

Entre minérios e silvérios ( Petrônio Souza Gonçalves )

Crônicas & Opiniõe | Fonte: Petrônio Souza Gonçalves ( Jornalista e escritor ) :: 09/05/2010
 Petrônio Souza Gonçalves é jornalista e escritor As Minas eram gerais. Foi primeiro o ouro. Depois, os diamantes, incalculáveis tesouros. Portugal sabia que tudo muito valia. Cobrou e Minas pagou, grama por grama, oitava por oitava, quilate por quilate. Bancou, com sua pobreza, a vida nababesca dos castelos portugueses, a revolução industrial inglesa. Fez a riqueza de fora, alimentou a pobreza aqui dentro.

Hoje, muitos anos depois, Minas insiste em manter a pobreza de sua gente, de sua natureza, de seu patrimônio histórico, cultural, arqueológico e espeleológico, o martírio das populações que vivem em suas áreas rurais, fazendo a riqueza das grandes corporações, das grandes multinacionais que exploram seu minério; as novas portugais. Tudo, por algumas moedas de ferro, sinais de uma mentalidade decadente e enferrujada, como se essa terra não fosse cenário de uma heróica inconfidência.

Ao que se constata em uma primeira análise, Minas deixa de arrecadar, anualmente, só com os royalties do minério, mais de R$ 3 bilhões. O que isso significa? Significa que as mineradoras vão extrair nosso minério, comer nossas serras, engolir nossas florestas e nos deixar apenas uma mísera gorjeta, um agradozinho bem barato frente ao patrimônio incalculável que elas nos levam, diariamente.

Seus caminhões, cada vez maiores e mais pesados, estão destruindo nossos asfaltos, formando verdadeiras valas em nossas vias. Nas rodovias, o perigo iminente de acidentes por veículos longos, lentos e pesados.

O petróleo tem sua extração no mar, distante das populações que vivem no litoral. Sua extração não come serra, não destrói a história, não derruba árvores, não seca nascentes, não assoreia rios e, no entanto, paga 5% do valor bruto arrecadado ao estado produtor. Em Minas, a extração do minério deixa apenas 0,2% do valor líquido arrecado. Em 2010 o Rio de Janeiro arrecadou R$ 10 bilhões advindos do petróleo. Minas, só R$ 65 milhões com o minério. Como classificar um disparate desses? Bom, por muito menos, outros mineiros fizeram uma histórica revolução e vidas, das mais nobres, foram ceifadas.

A poeira do minério é depositada, minuto a minuto, nas fachadas de nossas casas, nos bancos de nossas praças e dentro dos pulmões dos mineiros que moram perto dos locais de mineração. Do Pico do Cauê, declamado por Drummond em poesia, só restou um monte de tristeza e pó. No infinito, o Pico do Itabirito assiste ao seu fantasma despido e desolado. Em algumas áreas de exploração, o mal maquiado, o feio escondido, guardado, envergonhado, pobre Serra do Curral. O que vamos ganhar por tudo isso? Menos que os índios primeiros, que deram o caminho, mas não entregaram o tesouro.

Por que essa vergonhosa realidade calada em nosso Estado? Porque Minas aprendeu a entregar suas riquezas sem cobrar algo em troca. Foi assim com o ouro, foi assim com o diamante e está sendo assim com o minério de ferro. Se por um lado a doação do ouro e dos diamantes nos deu a nossa história, nossas igrejas, nosso casario e nossa cultura, a doação do mineiro deixa apenas um buraco em nossas almas, em que sepultamos os nossos rios, nossas belezas e a certeza de que nossas vidas valem muito menos que as de outros.

As cidades e seus homens ( Petrônio Souza Gonçalves )

Crônicas & Opiniõe | Fonte: Petrônio Souza Gonçalves ( Jornalista e escritor ) :: 04/05/2010
 Petrônio Souza Gonçalves é jornalista e escritor Cada cidade perdida pelos vários cantos do Brasil tem seus homens e sua história. Aqui, ali e acolá, eles estão lá, parte da glória, pedaço da memória. Muitos, dando continuidade, outros, guardando os cacos, fazendo o mosaico de histórias vivas, quase sempre esquecidas. Assim as cidades se reinventam, renascem. Assim, nem tudo se perde no girar das horas.

Sempre por aí, buscando os vários brasis que se entrelaçam e formam um só, saio colhendo histórias aqui e ali, na busca incessante dos pequenos pedaços que nos fazem tanto, muito, gigantesco em suas generosas miudezas.

No sul, ao sul de Santa Catarina, encontro no topo da serra a altitude dos sonhos primeiros dos tropeiros, aqueles que deixaram a calmaria do mar para encontrar nas alturas a boa-venturança de colher e plantar. Quem me conduz o olhar é o guia Zanette, tropeiro que subiu a serra e se encantou pelo céu aberto sem planos e sem medidas da Serra Catarinense. Em São Joaquim, me apresenta a cidade que cabe inteirinha em seu escritório, pedaço por pedaço, beleza por beleza, recorte por recorte. Assim fica bem mais fácil saber o porque de São Joaquim ser o grande orgulho nacional, a cidade da neve, do frio, das maças, das uvas, e de tantas outras coisas mais...

Nascido em Criciúma, criado no meio das tropas, Zanette é patrimônio material e imaterial de São Joaquim, agricultor de sonhos que planta nos corações dos visitantes a semente da fruta do amor pela cidade, essa terra que o céu, todo ano, quer tocar e deixa pedaços de nuvens de saudade em suas ruas, nos telhados de suas casas, nas esquinas dos corações. Todo mês de julho é assim, me diz Zanette mirando o infinito, quando a tarde caia preguiçosa no horizonte infindo.

De lá vim tocado pelas coisas da cidade que hoje estão aqui comigo, nas páginas da minha memória e dos jornais em que dela falei, em que dela relatei os melhores pedaços. Lá bebi vinho, comi maças, tomei banho de cachoeira e fui feliz, fui brasileiro, tendo por orientação suas preciosas palavras.

Viver é mais, é ser parte do todo, buscar por ele. São Joaquim agora é paisagem, memória, um baú de saborosas lembranças.

Que a cidade de São Joaquim reconheça o valor daqueles que a fazem, daqueles que a representam e dê ao guia Zanette um pouco do que ele entrega, diariamente, a todos que visitam São Joaquim, sem nunca pedir algo em troca. Para um povo que sabe plantar e colher, é hora de semear aos quatro ventos o carinho que ele tem com aqueles que amam e dão vida à cidade, entregando ao guia Zanette seu título mais honrado.

A crescente valorização do intangível ( Petrônio Souza Gonçalves )

Crônicas & Opiniões | Fonte: Petrônio Souza Gonçalves ( Jornalista e escritor ) :: 30/04/2010
 Petrônio Souza Gonçalves é jornalista e escritor Com a virtualização contumaz do mundo, assistimos também a virtualização das grandes empresas e das grandes marcas. Hoje, apenas uma logomarca pode valer muitas vezes mais que a estrutura física das maiores multinacionais do planeta. Fato este que seria impensado em outros tempos. Por que uma marca pode valer tanto? Por que ela traz signos e sinais de uma empresa, atributos a um produto, podendo alavancar investimentos e fundos mundo afora, alicerçada pela globalização que impera atualmente.

É assim que atuam as grandes empresas, na virtualização do presente. Quem poderia dizer que uma empresa que existe apenas na web, ou seja, virtualmente, poderia valer e faturar tanto como uma Google? No entanto ela está aí, ícone de uma época, de um período na história, prestando serviços e contribuindo pela construção de um novo mundo, marcado por novos valores.

Entre as marcas de fabricantes, marcas de varejistas e marcas coletivas, registramos sempre a busca pela criação de um mito, de uma logomarca, tendo ao seu redor produtos chancelados pelo novo ícone, indo desde um carro, até a um relógio de pulso, como é o caso da Ferrari. Onde está a excelência? Simples, apenas na marca, no cavalinho altaneiro. Por isso se investe tanto em publicidade, sempre buscando a criação de símbolo.

Conseguir a excelência desse ou daquele signo é muito mais importante hoje que a busca pela excelência desse ou daquele produto, levando sempre em consideração que a relação signo/produto é sempre uma via de mão dupla. Isso é tão significativo que este signo se desdobra entre extensão de linha e extensão de marca, tendo sempre como guarda-chuva o dístico de um tempo.

Enquanto que 80% dos produtos lançados na atualidade permanecem apenas um ano no mercado, a perenização de uma marca pode atravessar séculos e, em muitos casos, determinar modos e valores de gerações. Por isso ela é tão valorizada e tão cobiçada pelas grandes corporações, que atrelam a ela investimentos incalculáveis, muitas vezes superiores aos investidos em suas sedes e em suas fábricas.

O grande desafio dessas marcas é se manterem atuais, diante de um mercado que é cada vez mais dinâmico e menos fidelizado, tendo como maior concorrente a globalização. Hoje, em muitos casos, grandes empresas trabalham com a construção de seus produtos tendo a internet como ferramenta. Pela net escolhe-se a cor, acessórios e até o modelo de bancos de carros nacionais. Como manter todos os seus valores nesta nova forma de consumo é o grande desafio dessas multinacionais. Isso é o que se busca hoje, o consumidor interferindo e interagindo diretamente com o produto que deseja consumir.

Para as grandes empresas, vão surgindo novas demandas e novas exigências de mercado pela geração que está o dia inteiro conectada, virtualmente, com todas as empresas do mundo, levando, via web, seus desejos e anseios. São os chamados echo boomers que, de sua interação pela web estão reciclando um modelo antigo de comércio, criando novos desafios para as grandes multinacionais, que agora podem descortinar um mercado com características próprias e exigências individuais.

Conseguir se manter neste novo mundo é que será a grande vitória.

Lula errou de mulher ( Petrônio Souza Gonçalves )

Crônicas & Opiniões | Fonte: Petrônio Souza Gonçalves ( Jornalista e escritor ) :: 18/04/2010
 Petrônio Souza Gonçalves é jornalista e escritor O furacão Katrina arrasou os Estados Unidos. No Brasil, um furacão chamado Dilma anda arrasando palanques, alianças e candidaturas. Com sensibilidade de um elefante em uma loja de cristais, Dilma segue causando constrangimento, desentendimento e apreensão por onde passa. Foi assim em Belo Horizonte, foi assim em São Paulo, está sendo assim Brasil afora.

O maior problema de Dilma é ela mesmo, sua falta de trato, sua maneira de enxergar a vida e de lidar com os que estão à sua volta. É uma figura tão diferente de Lula... Marina Silva, não, é a versão feminina de Lula. Fundadora do PT no Acre, segue ela em sua solitária peregrinação Brasil afora. É uma candidata retirante, uma bóia fria da política nacional.

Marina tem uma história próxima da de Lula. Bastaria ele dizer, pelos palanques do Brasil, que esta é a minha candidata, pois ela é como eu, é como vocês companheiros, veio do norte, venceu desafios, é uma guerreira, uma trabalhadora brasileira. Eu nasci no sertão, ela na floresta. Somos filhos do Brasil, da pobreza, do esquecimento. Sabemos o que é a fome, a falta de estudo, de saúde, de emprego. E, no entanto, estamos aqui, por que passamos por todos os desafios e queremos dar um futuro melhor para cada um de vocês, por que nós sofremos na pele o que vocês sofrem todos os dias, nos vivemos a sua realidade diária. Por isso precisamos do seu voto, para mudar tudo isso...

Mestiça, Marina Silva tem a humildade dos vencedores e não a arrogância dos perdedores. Tem os olhos tristes dos oprimidos e o sorriso aberto dos que acreditam na luta diária, na superação dos desafios. Tem um jeito brejeiro de mulher sofrida, como se lê nos vincos de seu rosto.

Me parece claro que se a candidata de Lula à presidência da República fosse a Marina, teríamos uma transferência imediata de votos, um entrelaçamento de imagens, de depoimentos, de histórias, o que causaria comoção junto à população e um casamento natural entre os personagens.

Dilma, não. É uma imagem que destoa da de Lula, que não lembra sua espontaneidade, sua popularidade, seu jeito matreiro de fazer política. São imagens que não colam, que não se correspondem, que não se assemelham, que não se harmonizam.

O grande problema é que Marina não é submissa, não é serviçal, tem luz própria. Lula não queria uma candidata independente, pois ele tem muitos compromissos e precisa assegurar aos companheiros o esquema implantado dentro do governo federal dos milhares de cargos criados, do repasse sistemático de verbas para as ONGs petistas, da onisciência de José Dirceu no governo lulista.

Como diz o adágio popular, “quando a esperteza é demais, ela cresce e engole o dono”. Enquanto isso, vamos assistindo a crônica diária da candidata Dilma, a gata borralheira que sonha se tornar princesa.

Consciências sujas ( Petrônio Souza Gonçalves )

Crônicas & Opiniões | Fonte: Petrônio Souza Gonçalves ( Jornalista e escritor ) :: 10/04/2010
 Petrônio Souza Gonçalves é jornalista e escritor João Guimarães Rosa, gênio da raça, escrevia sobre os mistérios e os escombros da alma humana, decifrava-os. Sabia os atalhos, os anseios escondidos, as tormentas interiores de cada um. Um dia, sentenciou: “pessoas limpas, pensam limpo”.

Hoje estamos diante de dois simbólicos pensamentos. De um lado, o povo brasileiro pedindo, com milhões de assinaturas, pela aprovação do projeto dos homens limpos em pensamentos, nome e currículo, comandando a nossa política. É o Projeto de Lei Ficha Limpa, que tem como objetivo central “remover das eleições candidatos que cometeram crimes sérios, como desvio de verba pública, corrupção, assassinato e tráfico de drogas”.

Os sujos, como eles sempre fazem, já jogaram a votação do Projeto para maio. Por certo, para terem tempo de converter votos e garantir mais uma derrota para a democracia e para os desejos e anseios do povo brasileiro. Afinal, dois milhões de assinaturas valem nada, mas dois milhões de votos...

Em uma democracia tão frágil como a nossa, em que um voto pode ser comprado com um simples pão com manteiga e que vários votos podem ser fidelizados com um prato de comida diário, a sociedade tem que se organizar e estabelecer normas para aqueles que querem gerir a sua vida, para aqueles que terão o seu aval para tomar decisões, interferindo assim na vida e destino de milhões de brasileiros.

Por outro lado, temos o político que freqüenta mais os cadernos de polícia que de política em nossos jornais, Paulo Maluf, tentando retaliar e enquadrar, com um Projeto de Lei, o Ministério Público. É claro que este projeto de Paulo Maluf só tramita célere no Congresso por que conta com o silêncio cúmplice do Planalto e do PT. Pois, se fosse em outra época, a banca petista já teria colocado a esvoaçante Ideli Salvatti na rua e rufado os tambores da consciência cívica e moral, aqueles que eles desde que chegaram ao poder, não bradaram mais.

O mundo político nacional se tornou isso, uma matilha de cachorros iguais, cada um querendo apenas morder o maior quinhão que não lhe cabe. Por isso eles querem enquadrar o Ministério Público, vedar os olhos da Justiça. Não para barrar os crimes de agora, mas os crimes futuros, que eles vão perpetrar para perpetuar no poder, para alugar partidos, comprar comissões e, até mesmo, subornar promotores, procuradores, ministros e juízes.

Eles sabem que o crime no Brasil compensa e muito, e sempre tem uma boa recompensa... Por isso, é bom estar sempre com os cuecões fartos, impregnados pela sujeira do poder.

Celebração ao Cristo vivo ( Petrônio Souza Gonçalves )

Crônicas & Opiniões | Fonte: Petrônio Souza Gonçalves ( Jornalista e escritor ) :: 30/03/2010
 Petrônio Souza Gonçalves é jornalista e escritor Quando Maria recebeu o Cristo ensangüentado, de olhos fechados e braços abertos em seu colo, sentiu a dor do mundo em seu coração. Sofreu por todos, por ser a mãe que abraçava o Filho morto, por ser a escolhida que sabia ter em suas mãos o Filho de Deus martirizado. Quando fitou o infinito, trazia os olhos prenhes de luz, de quem via além e vislumbrava a eternidade, a divindade, aquilo que está muito acima de nós e, por isso, só sentida na entrega ao indecifrável mistério.

Quando carregou o corpo do Filho, sabia não ser ele, mas um pedaço que ficou para lembrar a história, testemunhar a glória. Era a Maria de todo dia. Ali, naquele triste momento de vazio e dor, nascia o cristianismo, da morte, em uma sublimação celestial transfigurando toda a paisagem. Era a semente do sofrimento brotando no solo fértil da fé, dos que crêem, dos que bebem diariamente o indefinível mistério, o invisível elo.

Acima da coroa de espinhos - nada mais simbólico que isso - a cruz apontando os vários caminhos, nós elevando o olhar para o além. Nas abscissas da dor, a longa e longitudinal caminhada, a via crucis de todos nós. Nas ordenas da fé, a linha reta que nos leva ao céu, o caminho dos sonhos, o religar ao que seu perdeu.

Cristo é a vida e a morte, a alegria e a dor, o sonho e a realidade, o hoje e a eternidade. Está tanto e em tudo, que se refaz a cada dia, a cada hora, como uma força imanente que não encontra o caminho da volta. Por isso tão falado, tão lembrado, tão vivo e amado, numa tradução diária de tudo aquilo que foi e plantou em cada palavra levada pelo vento da história, aquele que vai muito além das horas. Não foi a morte que sepulta, mas a fé que ressuscita.

Obstinado, enfrentou a fúria dos leões, a incompreensão dos justos. Teve tudo, sem exigir nada. Apenas pediu, como um sopro de primavera varrendo a atmosfera da terra em busca de paz: “Amai-vós uns aos outros como eu vós amei”. Foi o seu último pedido, quando, alta, a noite caia pesada sobre o coração da humanidade, tingindo a aurora com um grito de dor.

De sua morte fez-se vida. Do seu martírio, o perdão, pendão de vida para aqueles que buscam o além. Viveu o amor incondicional, devocional. Partilhou o pão que não tinha. Fez de peixes e pães alimentos imateriais da Humanidade, sanando a fome de muitos no deserto de homens e idéias. Muitos os viram, poucos o identificaram. Era Ele: trino e uno, homem e Deus, filho e pai, santo e etéreo. Depois da paixão, o renascimento, o Cristo vivo e eterno após tantos erros, equívocos e omissões.

Hoje, celebramos suas palavras, comungamos suas certezas, partilhamos seu exemplo, sua conduta irretocável. Nos elevou a Deus e o trouxe até nós, como imagem e semelhança, a busca divina pela verdade, a entrega, a comunhão libertadora. Como poderemos dizer que um dia morreu aquele que está vivo entre nós até os dias de hoje?

Sempre o senti, nunca o vi. No entanto, o seguirei e o buscarei até o último dia de minha pequena e efêmera vida!

Fronteiras da alma ( Petrônio Souza Gonçalves )

Crônicas & Opiniões | Fonte: Petrônio Souza Gonçalves ( Jornalista e escritor ) :: 24/03/2010
 Petrônio Souza Gonçalves é jornalista e escritor Quando os pampas do sul descansam à sombra das montanhas. O tradicionalismo marca a cultura do Rio Grande do Sul e a de Minas Gerais. Além do tempo e espaço, uma corrente de elos ancestrais liga os dois estados, os dois povos, tão múltiplos e tão unos no desejo sonhado de cantar e de se orgulhar da terra amada. Cada um com seu jeito, seu sotaque, suas crenças e seus valores, umbral das pequenas histórias que não se perdem mais. Assim, irmanados por essa ligação intangível e imprecisa, a Academia Mineira de Letras recebeu a visita do acadêmico Moacyr Scliar, para um bate-papo bem informal com estudantes e pensadores mineiros, dentro do seu projeto Bate-papo com o autor.

Dominados por uma atmosfera de boa prosa e causos em uma cozinha perdida no interior mineiro, ou em uma roda de chimarrão nos pampas do sul, o público foi bebendo as histórias, as origens, as verdades inventadas e vividas pelos personagens sclirianos, aqueles que alçam vôo na imaginação dos homens e ganham o mundo inteiro, o coração dos povos.

De origem judaica, de família vinda do norte europeu, Moacyr Scliar se lembrou de seu pai, da chegada dele ao Brasil depois de meses de fome no mar. O incentivo materno para a leitura, para a literatura, a cumplicidade calada da esposa, o orgulho ingênuo dos filhos... assim, como quem lê a mais surpreendente história, viajamos nas palavras de Scliar, como quem navega longe, longe, bem depois do arco-irís.

Das passagens bíblicas, as maiores curiosidades; do duelo autoral com o equivocado escritor canadense, os bastidores; do fazer solitário, as incertezas, as ante-formulas que sempre resultam em grandes histórias, em grandes obras. Todos atentos ao que o mestre falasse. Ali, tão perto, tão despojado e tão verdadeiro. Escrever é assim, é colher frases no vento, história na hora do dia, poesia em demasia...

Por mais de uma honra assim ficamos. Algumas perguntas e esclarecedoras respostas, a viagem já ia longe quando o tempo se esgotava. Era chegada a hora dos autógrafos e do carinho ofertado ao grande escritor. Deu um orgulho danado ao ver a longa fila, um a um com o seu livro na mão, cada um com seu jeito mineiro de ser naquela noite brasileira. Foi uma consagração.

Hoje, Scliar nos manda um artigo para a revista da Academia falando dessa ligação silenciosa do Rio Grande do Sul com Minas Gerais, de Porto Alegre com Belo Horizonte. Eu, que vivo dela há algum tempo, fui pontiando uma coisa aqui, outra ali, tentando tecer o fio dessa rende que me prende e me envolve nas coisas que não podemos compreender, mas, para nossa felicidade maior, viver, como se fosse uma rica história de sonhos e imaginação.

Somos tão iguais em nossas diferenças, que até sinto o gosto do café mineiro no quente chimarrão gaúcho que passa de mão em mão quando falamos dos maiores sonhos, nossas ocultas inconfidências...

Discursos de proveta ( Petrônio Souza Gonçalves )

Crônicas & Opiniões | Fonte: Petrônio Souza Gonçalves ( Jornalista e escritor ) :: 21/03/2010
 Petrônio Souza Gonçalves é jornalista e escritor Era uma frase, a transformaram em dogma: “o parlamento atual é sempre pior que o anterior”. A decadência política no Brasil é tão grande que vamos perdendo o senso da representatividade, da cobrança natural aos nossos políticos, da importância de nosso voto. Este é um processo calado que vai nos distanciando da consciência cívica, da busca por nosso futuro sonhado, e nos dando um presente de indiferença, desesperança, prostração e alienação. A política nacional se tornou isso, um processo de indicação e não de aclamação dessa ou daquela proposta, desse ou daquele candidato. Tudo tão insípido, tão descaracterizado, dissimulado, que não nos mobiliza para o mais banal debate. É um tempo de poucas idéias e quase nenhuma motivação.

A degeneração política nacional nos levou a isso. Hoje, o cargo nobre de um presidente da República, que deveria ser o coroamento de uma história e exemplo de vida, de anos de lutas e batalhas, pode ser preenchido por qualquer um indicado, como que se a decisão de toda uma nação, de um povo, coubesse a apenas um e a chancela de meia dúzia de apaniguados. Tudo muito medieval, primário, na base de escolhidos e endeusados. Esse é o Brasil real, um país prostrado, rendido, vencido e calado.

As próximas eleições serão disputadas por grupos, verbas, marqueteiros e conglomerados midiáticos. Uma mega produção, com direito a efeitos especiais de toda ordem, com capítulos de dossiês, mensalões e aparamentadas operações. De ideologias e idéias, nada, ou quase nada. Qual o discurso do candidato Serra à presidência da República? Qual o seu projeto de governo para o Brasil? E da candidata Dilma? Eu que nunca a vi sozinha em um palanque sequer, nunca a vi solta, cara a cara com o povo! Como votarei em algo que não conheço? Que democracia é essa que nasce nos gabinetes, passa pelo grande empresariado e vai acabar nos banquetes privados dos suntuosos Palácios? E o contato com o povo, o debate franco e aberto, a campanha cruzando as ruas e as cidades, realizando as grandes mobilizações? Ao que se constata, nada, nada do que está além do poder central e centralizador importa, tem importância. Esse é o Brasil pelego, a república dos companheiros. Foi por essa democracia que eles tanto lutaram?

Lamentavelmente, as próximas eleições serão as da falta de carisma, da construção de falsas cortesias de inventados candidatos. Eles trazem sempre o mofo dos gabinetes e quase nunca o cheiro de povo, das ruas, a centelha de uma idéia, de um ideal. Espontaneidade nenhuma, marketing de sobra. Espirituosidade nenhuma, sorrisos maquiados de graça.

É um tempo de sombras, um tempo climatizado, artificial, inventado, em que não se floresce o sonho e nem a esperança!.

Sem cuecões nem calcinhas ( Petrônio Souza Gonçalves )

Crônicas & Opiniões | Fonte: Petrônio Souza Gonçalves ( Jornalista e escritor ) :: 12/03/2010
 Petrônio Souza Gonçalves é jornalista e escritor Durante manifestações do Dia Internacional da Mulher, a ministra Dilma Rousseff, aproveitando bem a oportunidade e o predicado feminino, saiu em campanha: “Eu digo que o Brasil está preparado para ter uma mulher presidente, e as mulheres também estão preparadas para isso".

Ora, em que mudaria o Brasil ter uma mulher presidente se ela for a continuidade de um continuísmo político e administrativo que vem desde muito antes dela? Da política do compadrio; do peleguismo institucional; do aparelhamento do Estado pelos companheiros dos eleitos; dos desvios de verbas públicas para financiar campanhas; da transformação do Congresso Nacional em balcão de negociatas; do loteamento dos cargos pelos partidos aliados; da conivência com os erros e equívocos do governo anterior? Nada!

O que precisamos é de uma mulher vestida em vestes novas, com uma nova mentalidade, com uma nova forma de fazer política e enxergar uma nação, apontando novos caminhos, novas formas de governo, distante de tudo aquilo que nos dilapidou durante anos de ingerências, prevaricações e corrupções.

Nós sonhamos é com uma mudança verdadeira, não apenas uma plástica em nossa verdade, ou um botox barato aplicado em nossa história. Isso é tão antigo quanto a política terceiro-mundista que nos assola, aquela que nos dá pão e circo, mas nunca a condução do eterno picadeiro de nossas desilusões humanas.

Nós sonhamos é com uma mulher que venha trazer algo de novo a um país, a um povo, que venha trazer um alento, um tempo de paz, que saiba administrar a casa e direcionar os caminhos de todos aqueles que nela vivem. Uma mulher que tenha a sabedoria de uma mãe e a convicção de uma guerreira, e que seja capaz de dar a própria vida pelos seus filhos.

Como diz a reveladora passagem bíblica: “Não se pode deitar remendos novos em vestes velhas”. O que adianta um governo velho com roupas novas? Ou roupas novas em um governo velho? O novo não é a novidade da festa, mas sim a lucidez da ressaca.

Acredito que o Brasil está preparado para ter uma mulher presidente, uma mulher que apresente uma maneira nova de fazer política, uma forma diferente de comandar o país, os sonhos de um povo. Uma mulher que venha para mudar, não apenas encerar a casa e lustrar os móveis, mas, sobre tudo, descortinar as janelas em direção a um novo tempo.

Governantes e a palavra empenhada ( Petrônio Souza Gonçalves )

Crônicas & Opiniões | Fonte: Petrônio Souza Gonçalves ( Jornalista e escritor ) :: 01/03/2010
 Petrônio Souza Gonçalves é jornalista e escritor * Murilo Badaró – Presidente da Academia Mineira de Letras

Minha geração foi educada sob a influência dos “contos das mil e uma noites” e a consagração solene da fórmula ética de que “palavra de rei não volta atrás”. Assim fomos civilizados e muitos conseguiram o milagre de manter pela vida afora a força do aforismo moral de tanta significação. Com o avanço do modernismo, a revogação de princípios e conceitos em nome de um progressismo desvairado, houve natural afrouxamento moral e a quase invencível decadência dos critérios que, pelo tempo afora, criaram em torno dos valores axiomáticos e as luminosidades das verdades, consolidando-as tão eternas quanto as verdades matemáticas.

Hoje em dia, a palavra de políticos, homens de governo, como diz o caboclo, é “como risco de cobra n’água”. Sobretudo depois que governantes estabeleceram uma espécie de censura sobre os meios de comunicação pela via da publicidade indecorosa, que impede o semear de críticas e por outro lado promove o endeusamento do titular do governo. Um processo perverso e grotesco, feito à custa dos tributos pagos pela população para fazer crer na infalibilidade do chefe, atribuindo-lhe virtudes e qualificações que estão distante da realidade. Em sua cínica e sinistra teoria política, que ensejou os piores regimes em todos os tempos, Maquiavel assinalava que nunca faltarão razões de Estado para o príncipe descumprir a palavra.

O cinismo do condestável dos Médici ganhou prosélitos por todo o mundo. Dele fizeram uso Hitler, Mussolini, Stalin e outros déspotas, esclarecidos ou não, para implantar regimes de terror e se manterem no poder. Se esta contrafação fosse plenamente válida, George Bernanos jamais teria dito que a “democracia é de essência evangélica”, quer dizer, está assentada sob o primado de princípios e valores que a aproximam da verdade.

Em regime democrático é dever primeiro do governante cumprir a palavra, sem titubeação. Este é postulado ético fundamental, pelo que exige dele cuidados no falar e no dizer para não transformar a palavra em algo oco, sonoro e vazio. Infelizmente, no mundo atual assim têm sido os discursos e as palavras dos governantes, moços ou velhos, ambiciosos ou não. O leitor deve estar pensando na grande dose de ingenuidade contida nestas palavras. É que os arranhões à ética e à moral estão se sucedendo com tal volume e velocidade, que o crédito dos homens públicos praticamente não mais existe.

Minha geração não se acostuma nem se acostumará a isto e reprova a facilidade e o desamor com que o governante desrespeita sua própria palavra assumida em solene compromisso, em certos casos verdadeiro rompimento com a tradição avoenga e paterna e notório sintoma de falta de gravidade para o exercício de importantes funções.

No outono de longa vida pública, a memória me coloca diante de figuras que respeitaram apaixonadamente estes limites éticos. Há ainda neste cenário penumbroso e carregado de dúvidas homens sérios e de palavra firme. Mas estão acanhados diante da maré montante da mentira e do embuste.

Depois do carnaval ( Petrônio Souza Gonçalves )

Crônicas & Opiniões | Fonte: Petrônio Souza Gonçalves ( Jornalista e escritor ) :: 21/02/2010
 Petrônio Souza Gonçalves é jornalista e escritor Os mais humildes fazem o maior espetáculo da nação. Nada mais brasileiro, nada mais representativo que isso em nosso país. Colorida crônica de nosso múltiplo e generoso povo.

As comunidades carentes do Rio, depois de maquiadas e fantasiadas, podem descer o morro e conquistar a avenida, trazendo seu samba, seu deboche, sua dança. A permissão de acesso tem data e hora marcada, pois sua imagem vai entrar nas casas, no seio da família brasileira, ganhar o mundo, revelando o país que não existe.

É impressionante a capacidade de motivação que eles têm para se organizar e realizar um dos mais belos espetáculos do planeta. Fico imaginando se essa capacidade mobilizadora fosse usada para mudar a realizada social, cultural e física de suas comunidades. Ao contrário de realizar um espetáculo pueril, realizar um monumento perene à beleza e à superação, fazendo de suas vidas um eterno espetáculo, transformando suas vielas em iluminadas passarelas, seus morros na comissão de frente dos atrativos de uma cidade que já é maravilhosa. Da vida de seu povo, o destaque daqueles que um dia foram relegados ao total esquecimento social, cultural e político. Da educação e cultura de seus filhos, a porta-bandeira dos passos futuros.

A avenida não deveria ser tão distante, deveria ser a casa, a rua, a cidade de cada um. No entanto, eles fazem fora o que não têm dentro. Levam para a rua, o que não trazem para dentro de suas comunidades, de suas casas. Para justificar tudo isso, inventam personagens, confeccionam formas, como se fosse um prolongamento de seus próprios sonhos, de suas vidas. Ao fundo, o balanço de um samba falando de belezas, de sonhos, de feitos heróicos, dando um terceiro significado ao que não se vive plenamente. Tudo é tão significativo...

Enquanto batucamos nossa alegria na avenida, o estrangeiro - de camarote - desfruta nossa forjada beleza, apreciando a realidade que não vivemos, o luxo que não temos, a pobreza podre escamoteada por todos nós no dia a dia. É isso, o bloco dos garis, perfeita alusão aos dias da nababesca festa. Tudo ofertado em bandejas de ouro e prata, como sempre foi. Nesta pujante e passageira “epidemia chamada carnaval”, todos se tocam, todos se beijam, como se fosse a última vez. É a febre da festa anunciada, uma grande fantasia com um doce gosto de ressaca.

Tudo é tão pequeno que pode chegar, no máximo, a uma sonora nota 10 e nada além disso. E, no dia seguinte, a fantasia jogada na sarjeta, esquecida, como algo que não tem nome, que não tem valor, como algo que ficou sem vida, como uma maquiagem caída, deformada pelo suor do tempo e da história. A vida vai longe... nós não, estamos presos aqui!.

À janela da poesia ( Petrônio Souza Gonçalves )

Crônicas & Opiniões | Fonte: Petrônio Souza Gonçalves ( Jornalista e escritor ) :: 02/02/2010
 Petrônio Souza Gonçalves é jornalista e escritor O jornalista Petrônio Souza Gonçalves finaliza seu terceiro livro, o segundo de poemas, com imagens poéticas inusitadas, como a que já se revela no título: “Um facho de sol como cachecol”

Atualmente coordenando as atividades culturais da Academia Mineira de Letras, como o projeto Bate-papo com o Autor, que ele idealizou e que vende livros subsidiados pela Academia ao preço simbólico de R$ 5,00, Petrônio está cada vez mais entregue ao mundo da letras e da divulgação da palavra escrita. Depois do livro de estréia, Memórias da Casa Velha, de contos, de 2004, e Adormecendo os Girassóis, de poemas, de 2007, Petrônio viaja, nesse novo trabalho, pela temática de um homem preso ao seu tempo e pelas paisagens que o cercam, como ele carinhosamente chama de ‘as coisas do porão’.

Um Facho de Sol como Cachecol tem a apresentação do acadêmico Antonio Olinto, falecido recentemente no Rio de Janeiro, com quem Petrônio conviveu nos últimos anos e o homenageia com um poema no livro.

Um Facho de Sol como Cachecol traz ainda a capa assinada pelo cartunista Paulo Caruso e prefácio assinado pelo cronista e dramaturgo Alcione Araújo, com o título Indizível Coreografia, em que Alcione diz: “Parece simples, mas é áspera a labuta do poeta com as palavras. Passam a vida a caçá-las, a dar-lhes banho, escová-las, maquiá-las ou, a amassá-las, enlameá-las, desdentá-las, para não serem mais o que eram, e surpreenderem o leitor na primeira leitura. Não são poucos os poetas que lamentam a luta inglória. Se o poeta fantasia e coreógrafa as palavras, recriando a linguagem para dizer o indizível, o que poderia dizer um forasteiro não poeta, que usa a palavra sem maquiagem e sonolenta em vez de saltitante, senão que corra às próximas páginas, e aprecie como Petrônio Souza Gonçalves fantasiou e coreografou nossas surradas palavras para dizer “Um facho de sol como cachecol”, de um jeito que jamais diríamos”. O a orelha do livro é assinada pelo jornalista e escritor Domingos Meirelles.

O livro começa com um poema dedicado ao jornalista Sebastião Nery, que o autor considera ser o maior jornalista brasileiro vivo, dentro da sua recorrente temática do tempo, em que se lê: “O tempo é mesmo um deus cruel.../ Crava em nossa memória/ A espada enferrujada das horas./ No rosto,/ O traço roto dos anos sem pincel./ Sem demora,/ Minuto a minuto,/ Nos devora./ Nos mastiga com a força do pensamento/ E nos cospe na sarjeta da eternidade”.

Outro tema recorrente no livro é o amor e as paixões, imensamente vividos pelo autor, com a definição de que “O amor é como um poema,/ Tem vida longa,/ Em frases pequenas”. Pode ser ler também uma seção de máximas, como a que “Para ser diferente/ não é preciso ser estridente!”.

Voltando às raízes mineiras, encerra a publicação um poema dedicado a Ouro Preto e à música mineira, que se destacam as imagens poéticas: “Há um dedilhado rebuscado/ Ofertado pelas notas do vento/ Tocando o telhado das noites dos quintais ancestrais de Minas Gerais.../ Há um tempo desajeitado,/ Curvo de sentimento,/ Dos paralelepípedos quebrados das ladeiras de Ouro Preto,/ Com seus ângulos manchados pela ferrugem do tempo/ E suas lágrimas;/ Notas de sofrimento/ Na pauta triste da clave sem lua.../ Há uma noite nos acordes de Minas/ Acordando o canto dos pássaros/ No passado/ Do primado/ Do ouro/ Com todas as suas quimeras.../ São música as madrugadas de Minas./ A noite caindo dentro da gente/ E afinando o soneto/ Que somente nós,/ Que não o escutamos fora,/ Podemos nos encantar,/ Nos encontrar.../ Oração do dia./ Infinita poesia...”.

Escritor e jornalista, Petrônio mantém uma coluna semanal sobre política e cultura em mais de 40 jornais Brasil afora. Em 2005 ganhou o Prêmio Nacional de Literatura "Vivaldi Moreira", da Academia Mineira de Letras, como segundo colocado. Parte de seus textos ilustram o seu blog: www.petroniosouzagoncalves.blogspot.com. Para o presidente da Academia Mineira de Letras, Murilo Badaró, "Petrônio é um caso extraordinário de vocação intelectual e determinação política".

Com a previsão de lançamento para março de 2010, o livro de Petrônio já marca o cenário literário mineiro pelo uso de uma simplicidade harmoniosa, com a leveza entre temas e imagens, cenários e poesia.

Para quando o próximo verão chegar ( Petrônio Souza Gonçalves )

Crônicas & Opiniões | Fonte: Petrônio Souza Gonçalves ( Jornalista e escritor ) :: 27/01/2010
 Petrônio Souza Gonçalves é jornalista e escritor Depois das tempestades, a bonança. Silenciosamente, as águas voltam ao seu leito natural e a vida segue seu curso diário. Lentamente, as velhas mazelas são esquecidas e os repetidos protestos das populações atingidas pelas enchentes, evaporam-se à luz do sol, que banha e ilumina o dia-a-dia das cidades brasileiras. Infelizmente, tudo vai devagar, passivamente, enquanto as janelas olham as cidades seguindo em marcha batida, a velha rotina, até quando dezembro chegar.

As tragédias das enchentes são todas construídas no dia-a-dia de nossas cidades, desde a mão que joga o lixo no chão, que vai, bueiro abaixo, entulhando os canais de escoamento, até a mão da administração omissa, que prefere ignorar as obras subterrâneas de esgotamento sanitário e galerias fluviais, em detrimento das obras exposta à céu aberto, à olhos vistos. Tudo, na visão eleitoreira de quem escolhe entre as tragédias de seu povo e o possível sucesso eleitoral.

É preciso entender que o prejuízo de uma enchente é o atestado oficial de uma gestão distante dos verdadeiros anseios de sua comunidade, de uma administração incompetente, sem capacidade para corrigir os erros mais primários da urbanização dos pequenos e grandes centros urbanos de nossas cidades. Enquanto isso, das janelas das prefeituras de Minas e do Brasil, alguns contabilizam os estragos que as enchentes causaram, enquanto a chuva caia devagar.

Depois de recolher os cacos, é preciso começar os trabalhos, recomeçar a vida além do ponto em que paramos. É preciso vislumbrar mudanças, aprender com os erros, seguir em determinado progresso.

Enxugar a água e apenas retirar a lama, sem corrigir as causas dos desastres; dos deslizamentos de terra; da não vazão da enxurrada; dos transbordamentos dos rios; é estender no varal do tempo o lenço para enxugar as próximas lágrimas, fruto de muito sofrimento, tristezas e dor.

O tempo não para e as próximas chuvas já tem o seu dia marcado para chegar, gerando prejuízo para o Estado, para o município e para a população. Se nada for feito pelas prefeituras, ela ceifará vidas, destruirá esperanças e afogará sonhos.

É preciso corrigir isso, é preciso investir no mais barato, no mais viável, e realizar o trabalho necessário para que a vida continue tranqüila e aprazível nas cidades brasileiras. Afinal, a nossa vida não é tão besta assim!

Tá, mas e o jornalismo? ( Petrônio Souza Gonçalves )

Crônicas & Opiniões | Fonte: Petrônio Souza Gonçalves ( Jornalista e escritor ) :: 11/01/2010
 Petrônio Souza Gonçalves é jornalista e escritor Sem um reconhecimento institucional, vive o jornalismo brasileiro como uma categoria desclassifica. Subjugada pela Justiça terceiro mundista do país mensaleiro, o jornalismo se viu alvejado com a decisão retaliadora do Supremo, visando enfraquecer e, de uma certa forma, enquadrar a profissão e seus profissionais, colocando-os no degrau de baixo, debaixo da chuva e do sereno.

Nesta mesma toada, em decisão posterior, a banca calou a voz do jornal O Estado de São Paulo quanto às publicações relacionadas ao clã Sarney. Por certo, antevendo os vários escândalos que poderiam ser relatados. Que confissão!

Agora, arvoram em cima dos blogs, pobres edições caseiras, como nos casos do jornalista Fábio Pannunzio e de Adriana Vandoni.

Fábio está censurado desde o dia 1º de dezembro, do passado ano, por determinação da Segunda Vara Cível de Curitiba, não podendo publicar matérias sobre uma quadrilha internacional desbaratada pela Interpol, além de ter sido obrigado a retirar todo material que vinha publicando sobre o assunto, sob pena de R$ 500 diários.

Adriana Vandoni está censurada desde o dia 13 de novembro, por decisão da 13ª Vara Cível de Cuiabá, que determinou que ela se abstenha de emitir opiniões pessoais sobre o deputado estadual José Riva (PP) ou que veicule qualquer uma das mais de 100 ações que correm contra o deputado na Justiça. A pena para Adriana, caso descumpra a decisão, é de R$ 1.000,00 ao dia.

Bom, como nenhum crime é perfeito, os blogueiros resolveram trocar matérias censuradas. O que a Adriana não pode publicar, pode Fábio. O que o Fábio não pode publicar, a Adriana publica.

Na vida é sempre assim: se não podemos comprar o todo, compremos os poucos que podem muito.

Com pomposos salários de fome, o jornalismo brasileiro agoniza, entre os interesses da empresa e da imprensa. Sem estímulo e banalizado, a profissão de qualquer um escreve, diariamente, sua ultrajada história, como uma profissão que caiu, como um compromisso ético vencido e esquecido, como uma pauta que tem que ser, todo dia, requentada.

A quem interessa esse quadro de ostracismo profissional, de ideal e comprometimento? A todos estes que estão aí, taxando comissões, grilando o poder, oferecendo dossiês e mensalões. Este é o Brasil da tv, da pornochanchada institucional, do povo domesticado, do jornalismo desclassificado e calado.

Se o jornalismo são os olhos da nação, no Brasil, esses olhos andam vedados e, muitas vezes, enquadrado a olhar em uma única direção.

O verdadeiro Natal! ( Petrônio Souza Gonçalves )

Crônicas & Opiniões | Fonte: Petrônio Souza Gonçalves ( Jornalista e escritor ) :: 22/12/2009
 Petrônio Souza Gonçalves é jornalista e escritor Olavo Romano é uma das grandes personagens da cultura popular do nosso Estado. Pesquisador e folclorista, tem como hábito sair pelo interior de Minas garimpando as maravilhas perdidas do nosso povo, os versos esquecidos, o manancial verterdor de toda mineirice mineral da brasilidade.

Passava a Semana Santa pelo antigo Caminho do Ouro, chegando até a pequena São Gonçalo do Rio das Pedras, rio por onde escoou o diamante da nossa história. Bem-aventurado, conheceu a casa de Dona Geralda, onde havia um lindo presépio montado em plena Semana Santa. Espantou-se com o fato pois, pela tradição, os presépios ficam montados até o Dia de Reis - 6 de janeiro - e depois são recolhidos. Mas, como tudo que é diferente encanta, Olavo está encantado até hoje.

Dona Geralda explicava ao Olavo o por quê da exposição temporã do presépio. Com simplicidade crística, contava que estava atendendo ao pedido de uma freira que passara por ali antes e, maravilhada com o presépio da casa de Dona Geralda, pediu a ela que o mantivesse exposto até julho, pois ela iria trazer seus sobrinhos de São Paulo para conhecer aquela maravilha guardada pelas serras mineiras.

O presépio começou a ser montado por Dona Geralda no cantinho do quarto dela. Como ficou muito bonito, ela foi recebendo outros agrados para o Menino Jesus e ali colocando as oferendas. Um, trazia um ovo de inhambu, outro, uma barba-de-pau, uma raiz em forma de cruz, e ali ela foi intuitivamente ornamentado, construindo uma grande obra de arte. Com o passar do tempo, o presépio foi crescendo e tomou a metade do quarto dela. Olavo, vendo aquilo, comentou:

- Dona Geralda, se neste ano o presépio ocupou a metade do quarto da senhora, ano que vem ele vai ocupar o quarto inteiro!...

Ela respondeu:

- É, meu filho, ano que vem vou ter que mudar do meu quarto!

Depois de um silêncio reverencial, Olavo Romano voltou à Dona Geralda:

- Dona Geralda, o que que a Senhora pensa em colocar mais aqui no presépio no ano que vem?

- Ah, tem umas luzinhas que piscam, eu queria colocar umas aqui no teto!

- Então a Senhora pensa em colocar umas luzinhas aqui em cima como estrelas e fazer um céu?!

Dona Geralda se espantou, e com um semblante materno virou-se e falou:

- Céu!? Quê que é isso meu filho, Deus me livre; céu aqui, só o firmamento...

O presépio de Dona Geralda foi construído e movido pelo mesmo espírito que São Francisco de Assis criou, no século XIII, o primeiro presépio: reverenciar e adorar a vinda do Menino Jesus. Dona Geralda doou sua casa e seu quarto para construção de um presépio, para algo maior e, como os Três Reis Magos, muitos vieram trazer suas oferendas ao Jesus Cristinho.

Ganhou coisas simples de uma gente simples, fez uma linda obra, que encanta e toca os corações daqueles que ainda acreditam nas coisas deste mundo. É um resgate da tradição, no princípio ordenador da vinda de Cristo, uma lição de amor. Está lá, no interior de Minas, mas universal, iluminado. Tudo que está nele foi doado, de coração. É um centro armazenador da devoção humana.

O Natal dos presépios é um Natal que remonta um cenário cristão, de doação, fé e reverência. Contrário ao Natal do Papai Noel. O Papai Noel é uma personagem criada pela Coca-Cola em 1931, por isso traz suas cores encarnadas, o vermelho e o branco. É um agente descristianizador, patrocinado em todo mundo para apagar a verdadeira imagem do aniversariante, o Menino Jesus. Jesus veio ao mundo como o Filho do Pai, em forma de criança. O Papai Noel diz ser o papai de todas as crianças. Meu Deus, onde esta figura foi colocada.

Sua barriga sugere a gula; o saco cheio, a esnobação; e a sua risada ironiza àqueles que não podem ser seus escolhidos. É uma fraude ao verdadeiro espírito natalino. Cristo nasceu enquanto seus pais viajavam em lombo de mula, mesmo assim entrou na casa de todos. Papai Noel viaja em um lindo trenó puxado por renas e visita a casa de poucos, muito poucos.

Falar que Papai Noel é uma alusão a São Nicolau é uma heresia. São Nicolau era um santo homem, nasceu em 270 e morreu em 342, aos 71 anos. “Fez o bem, sem olhar a quem”. Fundou orfanato, saciou a fome dos pobres, protegeu marinheiros, ladrões e mendigos. Viveu sob a égide da caridade. Foi perseguido e preso pelos Romanos. Por amor ao seu semelhante, tornou-se Santo.

Papai Noel foi criado e financiado por uma empresa multinacional, vive no pólo norte, distante de todas as crianças do mundo e no Natal sai presenteando àqueles que podem comprar sua visita. Não tem pai, mãe, filhos ou amigos. Não posso acreditar nele! É, no máximo, uma paródia de muito mau gosto do nosso santo protetor.

Enquanto escrevo este artigo, acredito que o presépio de Dona Geralda tenha recebido uma nova oferta. Talvez, um anjinho de barro, uma pedrinha reluzente, ou quem sabe até um Menino Jesus de madeira. Como estou cá, distante dele, deposito nele este texto, esta oferenda ao Menino Jesus, ao Jesus Cristinho - tão lindo, tão menino e tão amado... Que Deus abençoe Dona Geralda, Olavo Romano e todo aquele que vive o Natal dentro e fora, o Natal do criador, do nascimento à manjedoura, o Natal natalino, sem outras palavras: Com a Graça de Deus!!!

É tempo de renascer... ( Petrônio Souza Gonçalves )

Crônicas & Opiniões | Fonte: Petrônio Souza Gonçalves ( Jornalista e escritor ) :: 14/12/2009
 Petrônio Souza Gonçalves é jornalista e escritor Não há data pré-estabelecida para festejar o verdadeiro Natal. O Natal, o nascimento do Cristo e das coisas do Cristo em nossos corações, deve acontecer todos os dias, todas as horas, a cada manhã, a cada instante. Brilhar em imensa luz nos apontando o caminho ao romper da aurora, estar ao lado e dentro de Deus.

O Natal é hoje e sempre, ontem e depois de ontem, há mais de dois mil anos, quando Maria se fez mãe de todos nós, trazendo em seu coração o sofrimento do mundo inteiro. Amanhã distribuiremos presentes para justificar a ausência da irmandade entre irmãos, da amizade entre pais e filhos, e da orfandade nos homens do verdadeiro Natal do Senhor.

A liturgia da palavra deveria ser lastreada em nossas vidas, em nossa caminhada. Mas como a nossa comunhão diária é com o medo que paralisa os braços, definiremos uma data no calendário para sepultarmos em nós e no próximo, dia a dia, a comunhão dos sonhos e desejos do Cristo. Afinal, teremos um momento propício para isso, definido, programado e oportuno. Tudo muito bem planeja, para não haver surpresas. Enquanto isso, vamos vivendo de ausências, distâncias, distanciamento e muito pouco afeto. Viveremos assim para plantarmos tesouros sobre nossos túmulos em que crescerão flores tristes e medrosas, revelando a vida que se encerra no degrau debaixo das relações humanas.

Não sorveremos as palavras embebidas na luz do amor ao próximo, de adoração ao eterno, da comunhão com o belo, do culto ao transcendente, da amizade que irmana os semelhantes em uma grande e luminosa corrente de fraternidade universal, da entrega. Sorveremos o medo da morte, o medo do próximo e, principalmente, o medo de nós mesmo. Pueril e estéril. O medo que faz as ruas desertas em nossos corações em que caminham, de mãos dadas, o vazio e a solidão.

Faz muito que Cristo andou por aqui. Suas pegadas deixadas na areia do pensamento humano parecem levadas pelo vento da história e pela pouca fé dos homens.

Parece que o mundo, o todo, afeiçoou-se muito mais ao escuro da sexta-feira do martírio que ao domingo do renascimento. Faz-se lá fora um mundo cinza moderno, enfumaçado pelo efêmero, debaixo da tempestade das grandes frustrações humanas. Será que nós sabemos exatamente o que fazemos com nós mesmo, dia a dia?

Enquanto isso, debaixo do imenso pinheirinho do tempo, o meninozinho, em algum canto esquecido do mundo, brinca com as sedutoras bolas da árvore de Natal, imaginando ter a beleza do mundo inteiro bem na palma da sua mão.

Faça seu comentário e envie para Petrônio Souza Gonçalves




Sobre o autor: Petrônio Souza Gonçalves é escritor e jornalista, Petrônio mantém uma coluna semanal sobre política e cultura em mais de 40 jornais Brasil afora. Tem três livros publicados, sendo um de contos e dois de poemas. Em 2005 ganhou o Prêmio Nacional de Literatura "Vivaldi Moreira", da Academia Mineira de Letras, como segundo colocado. Para o presidente da Academia Mineira de Letras, Murilo Badaró, "Petrônio é um caso extraordinário de vocação intelectual e determinação política".
  • Invista na sua Empresa aqui !!!

  • Colunas, Blog's, sites e utilidades no Correio Bragantino News

    • Tudo sobre a night bragantina

    • Pra ler uma notícia diferente!

    • Notícias da Cidade, política etc...

    • Leia opinião de quem entende

    • Coluna dos aniversariantes

    • Confira as belezas da cidade

    • Quem está fazendo história aqui!

    • Seja um colaborador do Correio

    • Confira vídeos da capital do Pará

    • Mostre seu vídeo para o Mundo

    • Consultar saldo do PIS / PASEP

    • Maravilhas da Região Bragantina

    • Blog do cartunista bragantino

    • Um olhar diferente p/informação

    • Site da cidade de Tracuateua-PA