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Petrônio Souza Gonçalves

Crônicas & Opinião | Fonte: PETRÔNIO SOUZA GONÇALVES é jornalista e escritor ( petroniosouzagoncalves@gmail.com ) :: ano: 2012

Petrônio Souza Gonçalves é escritor e jornalista, mantém uma coluna semanal sobre política e cultura em mais de 40 jornais Brasil afora. Tem três livros publicados, sendo um de contos e dois de poemas. Em 2005 ganhou o Prêmio Nacional de Literatura "Vivaldi Moreira", da Academia Mineira de Letras, como segundo colocado.

O escritor e jornalista Petrônio Souza Gonçalves lança seu primeiro livro: “Memórias da Casa Velha”, pela Editora Europa, Rio de Janeiro. Natural de Belo Oriente, leste mineiro, Petrônio passeia, em pequenos contos, pelos cenários da sua infância, povoados pelas coisas do interior.

Memórias da Casa Velha começou a ser escrito durante as férias de janeiro de 2003, na sala de visitas da casa da sua avó, a casa velha, na sua pequena Belo Oriente. Ali, Petrônio viu nas páginas da sua agenda o livro pronto e apenas contornou à caneta as histórias que já estavam escritas. O livro é saudosista, povoado por imagens do passado, coisas que, segundo o escritor, ainda estão presentes em sua vida e no seu coração.



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Um país à procura de um povo

Crônicas & Opinião | Fonte: PETRÔNIO SOUZA GONÇALVES é jornalista e escritor ( petroniosouzagoncalves@gmail.com ) :: 15/02/2012

O Brasil é hoje a sexta economia do mundo. No entanto, ocupa a 84ª posição em Índice de Desenvolvimento Humano. Não somos um país da contradição, mas, sim, da omissão. Pagamos os mais altos impostos e recebemos os mais baixos serviços prestados pelos governos. Formamos uma grande massa de silenciados da pátria, um “assombro de misérias e grandezas”. Aqui, a parcela mais pobre e esquecida da sociedade produz o maior espetáculo, o carnaval. Tudo para ser vivido fora, debaixo dos holofotes das avenidas, bem distante de sua comunidade.

O que é a democracia senão o direito e o dever da minoria representativa de fiscalizar e cobrar a maioria no parlamento? No entanto, o que vemos nesta terra desde Cabral é a maioria silenciando e cooptando a minoria e a minoria não buscando uma nova posição, não apresentando um novo projeto de país, um novo caminho. Não querem repensar o país, apresentar um programa de nação, mas sim um palanque e a chance de reivindicar os privilégios que não tem. Não legislam pela necessidade, mas pela conveniência.

Nossos grupos políticos não lutam por ideais, mas pela oportunidade de administrar verbas, distribuir cargos, aparelhar o Estado, acertar comissões. O caso das novas privatizações refletem bem essa realidade, tão ultrapassado quanto atual em nossa política, que rasteja seu terno surrado pelos corredores assombrados de nossa pobre vida diária. Está nos jornais, nas capas de revistas, enquanto a família brasileira assiste hipnotizada pela televisão a vida glamorosa que ela nunca terá.

Enquanto no primeiro mundo, com todos seus privilégios e conquistas sociais, o povo vai às ruas e protesta por uma política inclusiva e mais humanizada, nós nos escondemos em casa, guardados por Deus, voluntariamente refugiados. Alegam sermos um povo pacífico. Enquanto isso, explode nos centros urbanos uma guerra surda, uma violência desmedida, escancarada, de um povo fratricida. Em apenas um final de semana, produzimos mais vítimas fatais em todo território nacional que muitas guerras inteiras em países que vivem diariamente seus conflitos sociais, ideológicos e raciais. Aqui, até nossa violência é covarde.

Não podemos confundir paz com passividade. As greves, que deveriam ser um direito sagrado do trabalhador sem voz e sem vez, é usada, manipulada, para garantir votos e eleições. Não é a gestão para todos, mas para poucos. Governantes dizem com orgulho que não toleram malfeitos, já antevendo a próxima crise. É a culpa que condena. No entanto, aceitam como mérito o que não é feito. As instituições nacionais estão em frangalhos, falidas, divididas e repartidas. Não querem resolver os vários problemas, apenas administrá-los, tendo a certeza de saber os números exatos e planos complexos para a próxima campanha que já está sendo ensaiada. É a mão que sufoca o novo, enquanto escorrer a esperança e os sonhos dos brasileiros por entre os dedos.

Somos proprietários naturais das maiores reservas minerais do planeta. No entanto, estamos privados de viver dessas benesses. Temos autonomia em petróleo mas pagamos mais caro pela gasolina que países não produtores. Entregamos nossos minerais a preço de banana podre e depois compramos por muitas vezes mais o metal beneficiado, sem gerar um só emprego.

Aqui as forças não convergem para que dessa estrutura possa nascer um grande país. Mas divergem, cada uma apenas olhando para o melhor quinhão que lhe cabe. Por isso se faz justificável a criação de tantos órgão gestores e fiscalizadores, em uma triste constatação do dividir para concentrar. É a organização de pequenos grupos gerindo o todo, quando a Constituição proíbe a ação daquilo que é chamado de cartel.

Mais pela realização individualizada, desintegrada e dissociada da população que pela ação do governo, vamos colhendo frutos de um povo resignado e descomprometido, revelando que é capaz de produzir mas não de administrar. Somos os braçais da globalização. Essa é nossa triste realidade de um gigante adormecido, tendo seu berço esplêndido violado todos os dias, enquanto ele prefere sonhar a viver. Somos um grande país, mas ainda nos falta um grande povo.



Das câmaras e dos empórios

Crônicas & Opinião | Fonte: PETRÔNIO SOUZA GONÇALVES é jornalista e escritor ( petroniosouzagoncalves@gmail.com ) :: 21/01/2012

A vereança deveria ser, na política, uma das atividades mais nobres, o princípio de uma vocação, a certeza de representar e legislar para o bem comum, a representatividade encarnada e vivida. Diariamente lado a lado com o eleitor, com vida da família brasileira nos bairros, distritos e municípios deste imenso Brasil, onde vive e vota o cidadão, o vereador deveria cumprir uma das mais belas missões, de resignação e entrega ao bem comum. No entanto, são os que parecem mais distantes da realidade de seus municípios e do eleitor que sempre lhe dá o voto de confiança, àquele que o representa diretamente.

Brasil afora, em pequenos, médios e grandes municípios e sempre a mesma história encenada e repetida, para desilusão maior da população. Os escândalos são vários, sempre envolvendo os privilégios do poder e as benesses do cargo.

Quando o grande empresariado quer alterar um regimento municipal para o bem de seus investimentos, não mede esforços para aliciar vereadores e obter êxito em seus projetos, como sempre se vê nas pequenas e grandes cidades. Para cada legislatura, pelos menos um escândalo desses vem à tona. Em outras situações, vetam determinado projeto para valorizar o voto em uma próxima consulta. O princípio é sempre o mesmo, em detrimento de muitos para o privilégio de poucos, tudo contrário ao que deveria ser a vereança e sua causa.

Entre a população e o prefeito estão os vereadores fiscalizando o dia a dia nos municípios e suas gestões, o poder executivo sob a vigília do legislativo. Isso requer uma relação de independência e comprometimento cívico, uma austeridade política pouco vista em nosso país nos últimos anos. As câmaras municipais têm muito de nossa sociedade, tão múltiplas em sua origem e tão iguais em seus propósitos...

A eleição dos vereadores não é um passaporte da realidade em que viviam para um Olimpo de privilégios. Não! Eles, que se valem sempre de nomes populares e muitas vezes vexatórios para reafirmar sua origem e sua ligação com as comunidades, ignoram, quase sempre, ao primeiro instante, essa identidade e passam a legislar em causa própria, o que vai culminar com o aumento do salário. Fazem da pobreza, a sua riqueza. Dos gabinetes das câmaras municipais, a extensão de seus empórios.

Hoje, são 59.500 vereadores no Brasil legislando sobre seus salários, contando sempre com a chancela do prefeito de cada cidade ao final de cada aumento acordado. Isso faz com que a relação entre câmaras e prefeituras caminhe mais para um jogo de benefícios mútuos e acordos velados, tudo contrário a uma relação que deveria ser de independência e comprometimento com a causa pública e as reivindicações das comunidades.

Argumentam a seu favor que a Constituição Federal, em seu artigo 37, assegura que os valores para esses vencimentos são definidos conforme o contingente populacional de um determinado município. O salário não poderá será mais que 40% do subsídio destinado aos deputados estaduais. Para municípios com mais de 500 mil habitantes, fica estipulado o valor de 75% do salário dos deputados estaduais.

Pela atuação no dia a dia das cidades e suas periferias, os vereadores brasileiros deveriam ser os primeiros a distinguir a grande diferença existente entre o que é legal e o que é moral. Parece que a eleição lhes deixa sem esse senso crítico, tão bem partilhado pelo senso comum que um dia o reconheceu como representante direto de determinado parcela de nossa sociedade.

Cada cidade escolhe, a cada eleição municipal, os cidadãos que se destacam em determinadas funções e o elegem vereadores. Depois de eleitos, em um equívoco de avaliação, o outrora cidadão deixa de ser um escolhido representante popular e passa a ser político, colocando seus privilégios à frente dos daqueles que o escolherem. Cabe a cada eleitor, com o poder de escolha de seu voto, demitir na urna o mau representante que outrora elegeu.



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